Lançadas em março de 2011, as obras que prometem
revolucionar o tratamento do esgoto de Novo Hamburgo estão sob mau tempo.
Atrasos e indefinições por parte da Comusa colocam em risco a finalização do
investimento superior a R$ 150 milhões. O prazo de cinco anos anunciado pelo
ex-prefeito Tarcísio Zimmermann, durante o início das obras, em março de 2011,
implodiu. Já há estimativas extraoficiais indicando que vai levar o dobro do
tempo para o sistema estar funcionando na sua plenitude. Ou seja, a conclusão
seria realizada somente em 2021. A estimativa é que, quando o sistema estiver
operando, o percentual de esgoto tratado passe de 2% para 80% em Novo Hamburgo.
Os cinco anos previstos para a conclusão da obra fazem parte
do passado. A partir de agora, é preciso vislumbrar o que ainda precisa ser
realizado. Até porque existe risco real da perda de recursos por não
cumprimento de etapas e do cronograma. Um dos principais gargalos envolve as
plantas macrófitas que serão usadas no tratamento do esgoto e farão praticamente
tudo sozinha para devolver ao Rio dos Sinos uma água mais limpa. Um protótipo
para testar a eficácia das plantas está sendo erguido no Loteamento Moradas dos
Eucaliptos, junto ao Aeroclube de Canudos e quase na divisa com Campo Bom.
Detalhe: a obra deveria ter sido concluída em fevereiro de 2015. Já são 16
meses de atraso no protótipo.
Neste local de testes, que ainda não foi inaugurado e
consumiu R$ 1,5 milhão, serão necessárias cerca de 100 mil mudas para uma área
de 850 metros quadrados. Já para a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Luiz
Rau/Pampa, que terá uma área de 11 hectares, com nove lagoas de tratamento, serão
necessárias aproximadamente dois milhões de mudas. Só que aí existem mais dois
problemas: a produção ou compra de mudas e a construção das lagoas de
tratamento.
UNIVERSIDADE FEEVALE
Em relação às mudas, a Comusa ainda não definiu se irá
desenvolver as plantas ou se vai comprar. A Universidade Feevale é parceira nos
testes das macrófitas e garante que, de parte da instituição, os resultados
estão satisfatórios. “Temos experimentos com plantas macrófitas na ETE Mundo
Novo. Estamos analisando diversos fatores, como a eficácia do tratamento e a
resistência a pragas”, conta o responsável pelo projeto, dr. Gunther Gehlen.
“Planejávamos de 40 a 45% de eficácia no tratamento da água, mas estamos
alcançando 65%. Isso é bem positivo e mostra que o tratamento está no caminho
certo”, comenta.
Ele comenta que algumas variáveis, como excesso de chuva, no
ano passado, e a mudança de comando na Comusa atrasaram o cronograma. Mas
estima que, em até 60 dias, o protótipo deverá estar finalizado para começar os
testes. “Fizemos amostras nos laboratórios da Feevale. Agora, a Comusa precisa
definir como terá acesso às grandes quantidades, até porque a universidade não desenvolveu
uma produção comercial”, salienta. Gehlen diz que as plantas poderão ser compradas
ou, então produzidas em estufas. “O desenvolvimento delas demandas de três a
quatro meses. É uma definição que a Comusa precisa fazer”, completa.
LAGOAS DE TRATAMENTO
O outro problema levantado diz respeito às lagoas de
tratamento. A área reservada no bairro Santo Afonso está numa zona de conflitos
de interesses em função de ocupar a chamada “planície de inundação do Rio dos
Sinos”, num mapa desenvolvido pelo Comitesinos – Comitê de Gerenciamento da
Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos. Segundo apontamento da entidade, o local
para tratar o esgoto estaria numa região com potencial para ser invadida pelas
águas em casos de grandes cheias.
Em dezembro de 2015, o titular da Promotoria Regional da
Bacia do Rio dos Sinos, promotor Ricardo Schinestsck Rodrigues, divulgou uma
recomendação orientando “a suspensão de todos os atos administrativos que
interfiram ou possam interferir na planície de inundação objeto da citada
decisão da Plenária do Comitesinos, até final validação da conclusão dos
estudos em andamento na Metroplan, através do Contrato nº 003/2015 (gestão da
planície de inundação da Bacia do Rio dos Sinos). Eis aí mais um obstáculo a
ser superado e que está impedindo, inclusive, a implantação de outros
empreendimentos na região.
EX-SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE
O ex-secretário do Meio Ambiente de Novo Hamburo, Ubiratan
Hack, é um profundo conhecedor da pauta do tratamento do esgoto. Ele viajou
para a Europa mais de uma vez para conhecer com detalhes o funcionamento das
macrófitas. Sua tese de Mestrado, inclusive, trata das plantas. “A grande
vantagem é o custo de manutenção. Com as macrófitas, é bem mais baixo que o
tratamento convencional, que demanda utilização de energia elétrica. Isso
sensibilizou o ex-prefeito Tarcisio Zimmermann”, destaca Hack.
Ele lembra que, à época, alguns técnicos questionaram a
utilização das macrófitas em função do método tradicional, embora demandar mais
custos, ser de maior conhecimento dos profissionais. Hack, contudo, lembra que
a própria Corsan já tem lagoas com as plantas. “A eficiência do tratamento fica
entre 85% e 90%. Nenhum sistema é perfeito e pelo custo operacional mais que se
justifica”, garante. Questionado se a Comusa poderia recuar e abandonar a
utilização das macrófitas, aplicando o sistema tradicional para tratar o
esgoto, Hack confirma que isso ainda é possível, mas seria um retrocesso.
“Poderão jogar fora todos estudos que foram feitos e deixar de lado uma prática
que funciona muito bem na Europa e até aqui no Estado”, destaca ele, que se colocou à disposição, de forma voluntária, para ajudar a Comusa na evolução do projeto.
OBRA NA ROSELÂNDIA
Confirmando as informações de atraso no cronograma das obras
do saneamento básico no município, a Prefeitura e a Comusa lançaram, no
final de semana passado, as obras de tratamento de esgoto no bairro
Roselândia. A conclusão está prevista para o final de 2018. O projeto contempla
uma das sub-bacias do arroio Luiz Rau e terá investimentos de R$ 10,5 milhões
de recursos, sendo R$ 7,2 milhões oriundos do Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC) do Governo Federal e R$ 3,3 milhões de contrapartida do
município. Ao todo, serão implantados cerca de 9,8 quilômetros de rede de
esgoto, com tubulação em PVC, em uma área de 1,3 hectare desapropriada na
região.
COMUSA
Entrei em contato com a assessoria de imprensa da Comusa.
Recebi como retorno a informação que a pauta foi enviada para os responsáveis
técnicos. A reportagem aguardou por 15 dias por uma manifestação da Comusa. Não
houve qualquer interesse em esclarecer a comunidade sobre estas questões
levantadas na reportagem.
