A noite da quinta-feira passada estava um tanto abafada em Lomba Grande. O céu estava estrelado e os pássaros já haviam se recolhido. O cenário no bairro rural de Novo Hamburgo pedia um chimarrão no jardim da residência construída às margens da estrada que leva para
a localidade de São Jacó. E lá se foi o casal de hamburguenses com cuia, térmica e cadeiras se instalar no gramado e apreciar o silêncio noturno. Sem grades, alarmes, cercas, vigilância privada ou arame
farpado: a vida como deve ser, com liberdade e tranquilidade.
Só que o momento de sossego vivenciado pelo casal não durou muito. Sem perceberem a movimentação, um jovem invadiu o gramado apontando uma arma e, sem anunciar
o assalto, disparou um tiro à queima-roupa. Por força de um inesperado
reflexo, o morador fez leve movimento de corpo e a bala encontrou a lateral do pescoço e saiu pelas costas. O atirador pegou o celular da vítima e ainda tentou levar o celular da sua companheira, mas não conseguiu arrancar
o equipamento. O criminoso correu de volta para a rua, onde encontrou mais três jovens. Eles teriam fugido num Celta branco que estava estacionado numa curva próxima.
“Quase morri por causa de um celular.” O hambuguense, que trabalha na área de informática e tecnologia, mas prefere não se identificar, resumiu assim a ação que durou poucos segundos. Com o barulho do tiro, vizinhos vieram saber o que tinha acontecido e acionaram a ambulância do Samu – que chegou antes da viatura da Brigada Militar. Ele passou a noite no Hospital Municipal e, na tarde de sexta-feira, foi liberado por não correr risco de morte. “Foi muito sorte, questão de centímetros. Não pegou nas veias ou em alguma parte mais sensível”, desabafa.
Morando há 38 anos em Lomba Grande, a vítima – que nasceu de novo – conta que nunca tinha passado por essa situação. “Nossa bairro parece esquecido. Aqui na nossa região a Brigada Militar praticamente não aparece. De parte da Prefeitura, nem sabemos quem é o secretário. Nos sentimentos esquecidos”, desabafa. “Teremos que mudar nossos hábitos. Acho que tomar chimarrão de noite, no jardim, não vai mais acontecer. É muito ruim isso, pois aqui sempre foi mais calmo”, conta a esposa.
O caso foi registrado na 4ª Delegacia de Polícia, no bairro Santo Afonso. Como estava escuro, não foi possível registrar muitas características dos criminosos – somente que eram magros e jovens. Segundo o hamburguense, alguns vizinhos estão tentando organizar um grupo de WhatsApp a fim de melhorar a comunicação entre os moradores e passar informações sobre movimentações suspeitas. “Está todo mundo apavorado. Parece que os criminosos estão migrando de outras regiões para cá. Estamos preocupados”, finaliza a vítima – que quase morreu por casa de um mísero celular.
