Após diálogo, despejo da Ocupação Cultural Casa da Praça foi suspenso

Na manhã desta quinta-feira (24), a reportagem do Portal Martin Behrend foi informada de uma ordem de despejo.

 

O imóvel envolvido – que pertence ao município – fica no encontro das ruas Recife e Cacequi, no bairro Boa Vista, junto da Praça Heitor Villa Lobos.

 

É ali que está a Ocupação Cultural Casa da Praça. O espaço cultural realiza atividades culturais abertas à comunidade desde 2013.

 

Segundo artistas envolvidos com o imóvel, a notificação chegou durante o processo de retomada das atividades, que foram bastante afetadas durante a pandemia. “Estamos em contato com a Prefeitura de Novo Hamburgo, procurando impedir a desocupação do prédio que está prevista para esta sexta-feira, 25 de Março. O grupo de artistas que atualmente ocupa e desenvolve atividades no espaço, está aberto a proposta de formalização da ocupação, desde que sejam mantidas as atividades e a permanência dos artistas no espaço, sempre havendo como princípio a realização de atividades culturais e a contrapartida social para a comunidade hamburguense”, explicaram os artistas.

 

 

PREFEITURA

 

A partir desta realidade, os secretários municipais de Cultura, Ralfe Cardoso, e da Administração, Fauston Saraiva, e a diretora de Patrimônio, Eduarda Luft, se reuniram na tarde desta quinta-feira com representantes da Casa Da Praça para um diálogo construtivo em prol da manutenção dos movimentos culturais no endereço. “Nunca foi intenção da Administração Municipal retirar o uso do imóvel da sua finalidade cultural”, enfatizou Ralfe.

 

O secretário de Cultura destacou que, ao longo do tempo, a Casa da Praça construiu um ambiente com uma produção cultural intensa reconhecida regional e nacionalmente. “E agora, a partir da movimentação da Prefeitura, pretendemos, não só reconhecer o uso como, através de edital para concorrência pública, formalizar a posse para atividades culturais”, completou.

 

Ele acrescenta que há necessidade de regularizar esta situação de ocupação do imóvel.

 

 

Com isso, o Conselho Municipal de Cultura vai estabelecer diretrizes para o lançamento de um edital por parte da Secretaria de Cultura para ocupação permanente da Casa da Praça. “Ela continuará com a finalidade exclusiva na área cultural”, enfatiza. A partir desse diálogo, o despejo foi suspenso.

 

HISTÓRICO

 

O Portal Martin Behrend recebeu dos artistas um texto relatando a história do prédio.

 

“Construído na década de 1980 em terreno cedido pela Prefeitura de Novo Hamburgo, a fim de abrigar o Instituto dos Meninos Cantores – mais tarde denominado pela alcunha de Canarinhos -, o prédio da rua Cacequi, 19, representou durante quase mais de 20 anos um elo entre sociedade civil e cultura através da música. As paredes subiram numa mobilização dos Canarinhos.

 

Desde a sua fundação, teve participação direta da comunidade hamburguense, sobretudo moradores do Bairro Boa Vista, na arrecadação de fundos para o financiamento de seus projetos culturais com atividades comunitárias tais como “meio frango”, bingo e rifas. Graças à casa, os Canarinhos puderam representar Novo Hamburgo em festivais de Coros em território nacional e internacional, sendo reconhecidamente premiados por um número inestimável de troféus.

 

 

O Instituto também contribuiu para a difusão da música orquestrada sendo lugar de aprendizado de instrumentos e ensaio, tendo inclusive um atelier de luthieria, algo raro hoje em dia. No entanto, após perpassar administrações municipais dos mais diferentes espectros políticos, os Canarinhos entraram, paulatinamente, em um processo de decadência enquanto espaço cultural até o momento em que no final dos anos 1990 encerram suas atividades musicais.

 

A partir daí, a própria comunidade do bairro adotou a casa como sendo um espaço comunitário, onde realizavam festas de aniversário e outras ações. Já em 2012 uma nova diretoria do Instituto se forma.

 

Segundo a ex-presidente do Instituto, Ana Linck, no ano de 2013 os “Canarinhos” chegaram a ser contemplados, via projeto, como um Ponto de Cultura, mas em virtude de dívidas trabalhistas, os recursos não puderam ser captados. Assim, Linck recorreu à Secretaria de Cultura de Novo Hamburgo (Secult), a fim de cumprir o estabelecido no Termo de Cedência (1982) que determinava a reintegração do espaço aos próprios públicos.

 

Porém, a gestão da Secult, à época, sugeriu a possibilidade de que o prédio fosse utilizado pelos grupos de teatro em atividade no município, por ocasião da Conferência Municipal da Cultura. Diante disso, os responsáveis pelo Instituto à época abriram um canal de diálogo com artistas e coletivos culturais independentes da cidade para estabelecer uma estratégia de revitalização do espaço.

 

 

Assim é fundada a Associação Cultural da Casa da Praça, no intuito de ocupar o prédio e reativá-lo enquanto um espaço de cultura, desta vez, abrangendo não só a música, mas também o teatro, o circo e as artes plásticas.

 

A partir daí, a casa então foi cedida para que os artistas envolvidos na criação da Associação pudessem morar e atuar com seus projetos, tendo como contrapartida social a realização de atividades, eventos e oficinas à comunidade sob a lógica do “chapéu”, ou seja, contribuições espontâneas. A gerência das contas da casa e a manutenção do espaço ficaram então sob responsabilidade da Associação.

Sair da versão mobile