O espaço no bairro Jardim Mauá, em Novo Hamburgo, que por décadas promoveu esporte, lazer e encontro de famílias está com visíveis sinais de abandono.
Onde a bola rolava movimentando centenas de jogadores, agora tem um campo com gramado alto, inços, sem goleiras ou cercamento. Onde as famílias se reuniam para celebrações, restaram apenas vestígios das churrasqueiras e do galpão em anexo.
O playground das crianças não está lá. Algumas árvores foram cortadas. Da sede do clube ficaram partes do piso que não foram arrancadas pelas máquinas durante a ação de destruição do imóvel comandada por ordem do prefeito de Novo Hamburgo, Gustavo Finck (PP).
A antiga sede do Botafogo Futebol Clube de Novo Hamburgo ocupava uma área pública do município de Novo Hamburgo. Assim como outros locais públicos da cidade, o Botafogo tinha a responsabilidade de zelar pelo espaço. E mantinha o terreno seguro, em boas condições, promovendo outras atividades, como exposições de carros, oficinas esportivas e outros encontros. No período das enchentes do bairro, a mobilização do Botafogo ajudou dezenas de famílias. Dos seus mais de 70 anos de história, 35 foram atuando neste endereço.
Mas esta atuação do Botafogo incomodava o prefeito Finck. Em 2025, mesmo alegando calamidade financeira nas contas da Prefeitura, o chefe do Executivo determinou o despejo e anunciou que no local será construído um parque temático com foco em prática esportiva.
A medida pegou a comunidade hamburguense de surpresa, afinal, o prefeito alegava uma suposta calamidade financeira no município. Se não tem dinheiro para o básico no Hospital Municipal, para ficar apenas num exemplo, de onde virá dinheiro para um novo parque grudado no Parcão, que oferece muitos atrativos para caminhadas e práticas esportivas?
Com essa justificativa e tendo a prerrogativa de ser o prefeito, ele decidiu despejar e destruir a sede do clube. Sem diálogo, sem receber a direção do Botafogo. Foi na base do canetaço e do autoritarismo. Ações judiciais do clube tiveram êxito inicial para retardar a demolição completa, mas a destruição ocorreu em março deste ano.
SEM PROJETO
Quase meio ano após a demolição ordenada pelo prefeito Finck, a reportagem do Portal Martin Behrend esteve no local conferindo a área. Além do cenário de abandono, duas situações chamaram a atenção:
- O entorno do terreno está recebendo passeio público – no dia da visita da reportagem ninguém estava trabalhando
- Foram instaladas três câmeras para vigiar um campo abandonado
É imperioso registrar, mais uma vez, que o discurso de calamidade financeira foi uma invenção. Afinal, a Prefeitura teve dinheiro para levar máquinas para destruir a sede do clube, movimentar o jurídico do município, levar equipes de colaboradores para cortar árvores, destinar viaturas e efetivo da Guarda Municipal para conter eventuais distúrbios de um clube pacífico, instalar câmeras de segurança no local, fazer passeio público numa área que praticamente não recebe movimentação e, claro, anunciar que vai gastar milhões num parque.
A reportagem do Portal Martin Behrend entrou em contato com a Prefeitura fazendo questionamentos sobre a área: “Quando será lançado o projeto do parque temático? Os recursos estão reservados? Qual o valor do investimento? Quando começarão as obras?”
Foi enviado o seguinte esclarecimento: “O detalhamento das intervenções nas áreas públicas será divulgado oportunamente pela Prefeitura de Novo Hamburgo.”
O Botafogo poderia estar até hoje promovendo o esporte, o lazer e o encontro de famílias. Se o prefeito tem a prerrogativa sobre as áreas públicas, e era seu desejo despejar o clube para construir um parque, por que não deixar o Botafogo cuidando da área até ter os recursos para executar esse futuro parque? É uma resposta que converge para uma prática autoritária de Gustavo Finck ou de interesses ainda não tão claros.
Nesta reportagem de março deste ano do Portal tem o posicionamento do Botafogo diante do despejo: https://martinbehrend.com.br/novo-hamburgo/governo-finck-conseguiu-apos-decadas-de-historia-comunitaria-botafogo-sera-despejado .
Para a comunidade, resta seguir acompanhando e fiscalizando o futuro deste patrimônio de Novo Hamburgo, que apresenta sinais de abandono. Só não há silêncio completo porque algumas famílias do bairro ainda caminham por ali e os pássaros, como o cardeal registrado pela reportagem, não desistiram do local – mesmo com o corte de árvores.
