Mais é menos? Soma ou divide? Mobiliza ou dispersa? A questão da segurança – ou melhor, da insegurança pública – está na pauta das prioridades na comunidade de Novo Hamburgo. Dois rankings divulgados recentemente comprovam o que já se sabe e o que se sente: a violência é crescente e assusta.
No número de roubo de veículos em 2014, Novo Hamburgo figura em terceiro lugar no Estado. No ano passado, foram quase 800 veículos roubados na cidade. Se for levada em conta a taxa por 100 mil veículos, Novo Hamburgo avança uma posição e fica em segundo lugar entre os municípios onde se registra o maior número de roubo de veículos.
Já no ranking de homicídios para cada 100 mil habitantes, Novo Hamburgo figura na quinta posição entre as cidades que mais se registram assassinatos. Segundo índices da Organização das Nações Unidas (a ONU), Novo Hamburgo está quase três vezes acima do número limite para classificar um país ou região como "estado de epidemia de mortes".
A comunidade hamburguense – boa parte dela – não aguenta mais. E decidiu arregaçar as mangas com vigor nos últimos meses. Estamos vivendo uma enxurrada de pautas, projetos,
ações, mobilizações, programas e tudo mais que cerca o combate a violência.
Só que no meio deste clamor diário
veio a pergunta: mais é menos? Somar ou dividir? Espalhar ou aglutinar? Ampliar ou concentrar? É bom termos cinco entidades/movimentos empunhando a bandeira da segurança, com suas
pautas e demandas prioritárias? Desde 2013, seja como repórter ou voluntário, tive a oportunidade de realizar entrevistas, produzir reportagens e acompanhar o envolvimento de cinco frentes: Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha (ACI-NH/CB/EV); Consepro; #PAZNovoHamburgo; Pensando Novo Hamburgo; e Pró-Vítima. Cada um buscando soluções para tirar o município dos patamares de guerra.
É bom? É ruim? Somar ou dividir? Faço resumo da forma com que cada frente se articula:
Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha (ACI-NH/CB/EV) – Após quase um ano de trabalho, apresentou no mês passado seu Plano de Segurança Comunitária para Novo Hamburgo. Traz medidas a curto, médio e longo prazo. Empresários poderão repassar valores para as demandas do plano, desde que o município ou Estado garantam a imediata e respectiva aplicação dos recursos. A ACI já se reuniu com o secretário Estadual de Segurança Pública, Wantuir Jacini, e apresentou seu Plano – que poderá ser aplicado em municípios vizinhos nos próximos anos.
Consepro (Conselho Comunitário Pró-Segurança Pública de Novo Hamburgo) – Está sendo reativado e procura
se restabelecer. Tem site e página no Facebook, onde divulga ações de combate à criminalidade. O atual presidente é o advogado Diogo Boos. Segundo consta no Facebook, “crio este grupo a fim de que possamos mobilizar a comunidade, principalmente quem se interessa, precisa, incentiva, ajuda e quer uma Novo Hamburgo mais segura, com incentivos público e privado, com a comunidade participativa na segurança pública desta nossa cidade, que já foi mais segura e teve mais participação efetiva da comunidade com a segurança pública.”
#PAZNovoHamburgo – Movimento criado em junho de 2014, após o assassinato do empresário Gabriel Rodrigues. Tem o apoio de 41 entidades, clubes sociais e esportivos, escolas, universidade e empresas. Principais metas: alcance da taxa de fuga zero do Instituto Penal de NH; efetivação da fiscalização do trabalho externo dos detentos dos regimes semiaberto e aberto do IPNH; construção de um novo presídio; incentivo a ações de ressocialização e acesso ao trabalho formal dos detentos; luta pela extinção dos regimes semiaberto e aberto no Brasil; incentivo a ações de participação da sociedade no combate à violência. Viabilizou junto ao poder público aquisição de nove câmeras, que estão sendo instaladas no entorno do presídio.
Pensando Novo Hamburgo – Movimento com mais de dez anos de atuação. É uma entidade com propósito mais deliberativo do que executivo. Tem encontros quinzenais, com adesão voluntária de qualquer morador de Novo Hamburgo. Já teve bandeiras como a vinda dos trilhos da Trensurb para Novo Hamburgo e promove várias palestras e debates sobre segurança. É uma das pautas mais abordadas em seus encontros. Teve alguns projetos esporádicos para combate à violência.
Pró-Vítima (Associação Brasileira de Defesa das Vítimas) – Entidade criada em 2004, foi fundamental para viabilizar e finalizar a Central de Polícia de Novo Hamburgo. Tem como presidente o vereador Inspetor Luz (PMDB). Apresentou na noite de ontem um projeto que poderá colocar Novo Hamburgo como referência nacional em segurança pública: Cidade Compartilhada – Segurança para Todos. O
projeto pretende integrar milhares de câmeras públicas e particulares no município, mapeando e controlando rotas de fuga, e articulando um trabalho com a Polícia Civil. Um software com identificação facial e leituras de placas de veículo será oferecido ao projeto. Será viabilizado com recursos da iniciativa privada, administrados e tendo a prestação de contas pela Pró-Vítima.
Volto à pergunta. É bom? É ruim? Somar ou dividir? A minha resposta: é positivo – desde que o interesse do coletivo esteja acima de interesses individuais. Não vejo prejuízos em se ter várias frentes
para combater a violência. Quanto mais pressão, melhor. Quanto mais gente mobilizada, melhor. Quanto mais indignação, melhor. Quanto mais ideias e projetos, melhor. Quanto mais cobrança para cima das autoridades públicas, melhor.
Minha ressalva: os projetos e as iniciativas devem ser respeitados e apoiados. As ações, algumas parecidas, devem ser compreendidas como uma soma – e não uma divisão. Os movimentos precisam se falar – mesmo que institucionalmente. Não deve haver espaço para politicagem, autopromoção, vaidades e boicotes. Se estão todos pregando mais segurança, qual o motivo de se omitir as ações e os projetos de outras frentes, por exemplo? É competição? É vaidade? É revanchismo? Quem ganha com isso?
Se todas frentes pregam mais segurança, dias melhores e mais tranquilos, vão em frente com entusiasmo, respeito e organização. Neste caso, dividindo para poder somar ali na frente. Precisamos dar fim a estes números de guerra que transformaram Novo Hamburgo numa das cidades mais violentas do Estado.
