A mais jovem doutora do Brasil é de Novo Hamburgo: Manoella Treis

O que você estava fazendo com 24 anos e 11 meses de vida? Ou se você ainda não tem essa idade, o que pretende fazer com 24 anos e 11 meses de caminhada?

No caso da hamburguense Manoella Cará Treis a resposta é: estava defendendo a tese de doutorado na UFRGS.

Nesta segunda-feira (29), Manoella teve sua tese em Políticas Públicas aprovada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Com isso, ela se torna a mais jovem doutora do Brasil. “Desde pequena eu tinha essa vontade de ter o título de doutora. É um objetivo alcançado”, comenta.

O título de sua tese é: “Análise da formação de agenda governamental sobre políticas públicas para mulheres portadoras de endometriose: Um estudo de caso sobre o Brasil e a Austrália”. Ela foi orientada pela Profa. Dra. Marília Patta Ramos.

Com essa aprovação, ela supera outra jovem doutora brasileira. Nattane Luíza da Costa concluiu o doutorado em Ciência da Computação aos 24 anos e 11 meses – mas faltava uma semana para seu aniversário de 25 anos.

No caso de Manoella, ainda falta quase um mês para seu aniversário de 25 anos. Isso significa que, por três semanas, ela se torna a doutora mais jovem do país. A reportagem de Nattane pode ser conferida no link a seguir: Veja a trajetória da doutora mais jovem do Brasil – Brasil Escola (uol.com.br)

TRAJETÓRIA

A vida escolar de Manoella passou por três endereços em Novo Hamburgo: colégios Sinodal da Paz, Oswaldo Cruz e Pio XII. “Como nasci no final do ano, tinha aquela dúvida se me matriculavam numa turma pra frente ou numa pra trás. Acabei avançando e sendo uma das mais jovens na escola”, explica.

Desde pequena, ela alimentou o interesse por pesquisa, estudo e qualificação. A hamburguense recorda de duas situações que fizeram potencializar sua ânsia por realizar descobertas: a história de Novo Hamburgo e o envolvimento de antepassados, como Pedro Treis e Ignacio Treis, e uma palestra com uma bióloga, quando ela tinha menos de dez anos. . No Pio XII, a feira PioTec também ajudou a fortalecer essa vontade de ir em busca de novos conhecimentos e respostas.

Ao concluir o Ensino Médio, Manoella ingressou na faculdade de Jornalismo, na Unisinos. Após três semestres, percebeu que não era bem a área que iria evoluir.

A orientação de seu pai, Cleber Treis. foi importante naquele momento. Com isso, em 2015, começou seus estudos curso de Processos Gerenciais, desenvolvendo atributos como empreendedorismo, liderança e inovação. Em três anos, concluiu essa etapa. Então, ela teve a certeza que estava no caminho certo.

Uma das suas iniciativas do período foi desenvolver a Plug Doações, uma plataforma para arrecadar doações para quem está precisando. O Portal Martin Behrend destacou algumas das mobilizações desenvolvidas pela Plug: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… e https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… .

Em 2017, começou um MBA em Gestão de Projetos de Inovação, na Universidade Feevale. Quase simultaneamente, iniciou o Mestrado em Ciências Sociais na Unisinos. Sua pesquisa envolveu a questão das inundações no bairro Santo Afonso e como as políticas públicas impactam na qualidade de vida dos moradores do bairro, especialmente da Vila Palmeira. Ela trouxe dados sobre a implantação de políticas públicas para enfrentar esse tema e realizou uma análise do que foi realizado e do precisa ser feito.

Manoella foi a campo: conversou com moradores, com gestores da Prefeitura e desenvolveu um trabalho denso e com sugestões que podem ser colocadas em práticas pela Prefeitura. “A dissertação está publicada e disponível às autoridades. Serve como fonte de pesquisa para compreender o que já foi feito e o que pode ser melhorado em relação a questão das enchentes naquela região de Novo Hamburgo”, salienta. O trabalho se encontra no Repositório Digital da Biblioteca da Unisinos.

Com o mestrado concluído, veio a vontade de avançar para o doutorado. Desta forma, ela se inscreveu na UFRGS. Eram 35 candidatos disputando dez vagas. Manoella ficou em 11º lugar. Após alguns dias de frustração, recebeu uma ligação telefônica com uma confirmação: houve desistências e ela estava habilitada a realizar o doutorado.

Em março de 2020, a pandemia do coronavírus explodiu no país. A hamburguense esteva apenas uma vez de forma presencial na universidade. Depois, tudo foi realizado de forma on-line. Sem precisar usar o tempo de deslocamento até a capital, ela capitalizou essas horas preciosas no aprofundamento de sua tese.

A jovem hamburguense fez estudo de casos entre casos da Austrália e do Brasil envolvendo mulheres portadoras de endometriose e a atuação da saúde pública na assistência das pacientes.

Antes de seguir com o relato, o que é endometriose? O útero é revestido por um tipo de tecido que é afetado pelos hormônios, engrossando sua espessura e sendo expelido do corpo conforme o ciclo menstrual da mulher, e é chamado de endométrio. O endométrio é o que permite, por exemplo, que o óvulo se instale ali para que possa ser fecundado pelo espermatozoide, gerando uma gravidez. Quando esse tecido cresce fora do útero, em lugares da cavidade abdominal, como os ovários, a bexiga e por fora do útero, a paciente é diagnosticada com endometriose.

A partir de dados pesquisados exaustivamente da Austrália – ela vasculhou mais de 400 documentos oficiais do governo australiano -, Manoella, que sofre de endometriose, conseguiu extrair modelos que foram bem-sucedidos neste país da Oceania. Ela identificou tratamentos realizados na Austrália a fim de compreender o que pode ser colocado em prática como políticas públicas no país para que as brasileiras possam ter mais facilidade no atendimento de casos de endometriose. “Essa é uma realidade muito distante em nosso país. De sete a dez milhões de brasileiras sofrem com endometriose. No mundo, são 170 milhões. Mesmo assim, receber o diagnóstico no Brasil demora muito tempo. É uma condição que pode ser muito dolorosa e, em alguns casos, pode levar à morte”, revela Manoella.

A pesquisadora destacou que existe uma intenção de criar um projeto de lei de enfrentamento da endometriose, mas ele está parado há anos no Congresso Nacional. Sem essa coordenação nacional, as mulheres ficam restritas a ações locais ou regionais específicas, passando por particularidades de diferentes regiões do país.

E agora, mestra e doutora Manoella, o que vem pela frente? “A intenção é buscar um pós-doutorado. E, claro, a partir de agora, estar aberta a convites para poder trabalhar em universidades ou outras instituições”, comenta.

Ciente de que a valorização dos cientistas e pesquisadores no Brasil está muito distante do que estes profissionais merecem, a jovem doutora olha para o futuro acreditando numa mudança de postura – inclusive a partir do que ocorreu na pandemia.

Mais um detalhe para reforçar o ineditismo da caminhada da hamburguense: o tempo para desenvolvimento da tese de doutorado era de quatro anos. Manoella fez em menos de dois. Por isso, sua situação precisou ser avaliada internamente num processo administrativo da UFRGS para assegurar a conclusão do doutorado em período tão exíguo. “A minha tese estava pronta desde setembro. Mas foi preciso esperar o aval da universidade”, revela.

Viva a ciência. Viva a pesquisa. Viva o conhecimento. Parabéns, dra. Manoella Treis, a mais jovem doutora do Brasil.

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