Choro. Lágrimas. Tristeza.
A segunda-feira (8), que já é cinzenta no Vale do Sinos, ficou ainda mais carregada no Lar São Vicente de Paula, em Novo Hamburgo. A instituição, que atende 43 idosos do município, está encerrando o setor de Enfermagem.
Serão demitidas duas enfermeiras e 11 técnicas de Enfermagem.
O motivo da demissão é que o lar, que trabalha com doações e é um espaço da comunidade hamburguense, não tem reservas para absorver o aumento salarial do novo Piso Nacional da Enfermagem. O piso foi aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro.
No caso do lar, o custo mensal aumentaria em R$ 40 mil para honrar os novos valores do piso. Num ano, seriam mais de R$ 400 mil somente em razão do impacto salarial.
O Portal Martin Behrend destacou esse drama do lar em reportagem do final de semana: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… . E, infelizmente, esta notícia deverá se tornar corriqueira em todo o país, porque outras instituições beneficentes viverão a mesma dificuldade.
“É um dia muito triste, não queríamos estar fazendo isso. É óbvio que a valorização salarial é merecida. Mas do jeito que aconteceu, não tivemos outra alternativa. Foi de um dia pra outro”, lamentou a presidente voluntária do lar, Pâmela Campos.
Ela destacou que a demissão de 13 pessoas com o fechamento do Setor de Enfermagem foi uma decisão adotada em razão da legislação. A lei obriga que o atendimento de idosos – alguns com muita dependência – tenha um número mínimo de profissionais de planetão. Dessa forma, o lar não poderia permanecer com a metade da equipe, por exemplo, já que seria denunciado por não respeitar a lei em vigor. Com isso, a demissão em grupo foi a alternativa para a instituição não ser acusada de estar explorando os trabalhadores.
RESCISÃO
Com as demissões, vem um desafio urgente: pagar as rescisões de todos os profissionais que estão sendo desligados. O valor é de R$ 120 mil. “Precisamos, mais uma vez, da ajuda da comunidade. Este lar não é da Prefeitura. É uma entidade da comunidade. É verdade, também, que prestamos um serviço que, se não existisse, teria de ser realizado pelo município. Em dez dias, precisamos reunir este valor”, conclama Pâmela. “Todo e qualquer valor vai nos ajudar. O tempo é curto”, completa.
O telefone de contato para saber como doar é (51) 3595.8181.
CUIDADORES
Na manhã de hoje, a direção do lar também informou como manterá seus serviços. A ideia é contratar 11 cuidadores a fim de garantir os atendimentos mínimos. Interessados em trabalhar poderão ligar para o lar para envio currículo ou se colocar à disposição.
Além disso, o lar pede que voluntários da comunidade, que tenham turnos ou dias livres, dediquem algumas horas para fazer companhia aos vovôs e vovós. A direção também solicitou que as famílias, dentro de duas realidades, levem os idosos para as casas de familiares um ou mais dias de semana nesse momento de transição, até porque os atendimentos poderão ficar sobrecarregados. “É hora da rede familiar dos nossos vovôs funcionar”, solicitou a presidente.
No encontro de hoje, o deputado estadual Issur Koch (PP) foi o único político presente. No ano passado, ele esteve no lar a fim de apresentar soluções de como a entidade poderia captar recursos e, novamente, se colocou à disposição para intermediar soluções.
Não havia representantes da Prefeitura, da Câmara de Vereadores ou do Conselho Municipal do Idoso – a reportagem já fez contato com a Prefeitura a fim de buscar detalhes sobre recursos que podem ser repassados ao lar. Também não estiveram presentes deputados federais e senadores gaúchos que aprovaram o Piso Nacional da Enfermagem.
Todas estas medidas emergenciais que o Lar São Vicente de Paula está adotando é pra evitar fechar as portas, após quase 30 anos de atuação. “Queremos que a comunidade traga ideias e sugestões de como podemos sair dessa situação”, convidou Pâmela. “Tudo pode ser útil nesse momento. Reforço: não somos vinculados ao poder público. Somos da comunidade, com muitos voluntários atuando por esta causa”, acrescentou.
No final do encontro desta manhã, veio mais um desabafo: “Eu fico pensando nos vovôs e vovós, que não terão mais os seus enfermeiros ou técnicos preferidos para ajudar na rotina. É de partir o coração. Estamos falando de vidas humanas. São idosos, que estão perdendo suas referências de profissionais que realizavam os atendimentos”, desabafou, chorando, uma voluntária do lar.
O LAR
O lar teve lançada a sua pedra fundamental em 29 de junho de 1991, em terreno cedido em comodato pela Prefeitura de Novo Hamburgo, no bairro Primavera, Somente em 30 de julho de 1994 houve o ingresso dos primeiros idosos no lar. Foi nessa mesma data que a instituição passou a se chamar pelo nome que atende hoje.
Residência de 43 idosos, o lar fornece aos acolhidos todas as refeições diárias, atendimento médico, psicológico, nutricional, medicações, itens de higiene, vestuário e atividades de lazer. É num espaço cercado de muito verde, tranquilidade e acolhimento recebem tudo que necessitam para uma vida digna com respeito e qualidade. A aposentadoria dos vovôs e vovós, que na maioria das vezes é de um salário mínimo, é a contribuição para viver no lar.
Atualmente, são de ações voluntárias que o Lar São Vicente de Paula consegue o seu sustento, como por exemplo a Festa do Bem e eventos gastronômicos.

























