Três vitórias em 23 jogos oficiais. É o pior Novo Hamburgo da história?

O primeiro semestre do ano de 2023 entra para a história do Esporte Clube Novo Hamburgo de forma negativa.

A campanha do Noia em três competições oficiais é um fracasso.

O Portal Martin Behrend não conseguiu pesquisar todo o retrospecto na história de 112 anos do clube, mas é possível afirmar que é um dos piores semestres de todos os tempos.

De janeiro a junho de 2023, o anilado disputou 23 jogos oficiais. São três vitórias, oito empates e 12 derrotas.

Gauchão: 2 vitórias, 5 empates e 4 derrotas

Série D do Brasileiro: 0 vitória, 3 empates e 7 derrotas

Copa FGF: 1 vitória e 1 derrota

Na Série D do Campeonato Brasileiro, o Novo Hamburgo, após dez rodadas, alcançou a vexatória marca de ser o pior clube entre os 64 participantes, com zero vitória – o único que ainda não venceu.

DIREÇÃO

Em 2022, a chegada de uma nova leva de dirigentes para comandar o Novo Hamburgo trouxe ares de renovação. Em novembro do ano passado, Jerônimo Freitas foi eleito presidente pelo Conselho Deliberativo do clube, trazendo junto com ele uma novo grupo de lideranças.

Os novos dirigentes já tinham relação com o clube em razão da ligação com a base do Novo Hamburgo. Eles são diretores executivos da empresa Vale World, que faz a gestão das categorias de base do Noia.

Para comandar a temporada 2023, a direção trouxe uma aposta: o técnico Gabardo Jr. Ele não foi bem na largada e, então, foi chamado Edinho Rosa – que manteve uma campanha de fracassos.

Além de não ter resultados dentro de campo, a direção anilada foi muito criticada em razão da falta de manutenção do gramado do Estádio do Vale – virou piada nacional – e também por outros episódios de pequeno porte que desgastaram a imagem da instituição.

Outra situação que causa estranheza é uma falta de posicionamento mais efetiva do Conselho Deliberativo. O presidente, Saul Medeiros, é figura considerada aliada e de confiança do presidente. Com isso, não há cobranças públicas nem mesmo mobilizações para saber quais os rumos da diretoria anilada.

AVALIAÇÕES

Diante desse cenário de tantos insucessos no futebol, o Portal Martin Behrend procurou ex-dirigentes e torcedores do Noia. Foram feitas duas perguntas: Este é o pior Novo Hamburgo em 112 anos de história? Consegues apontar quais motivos explicam esta campanha desastrosa neste primeiro semestre de 2023?

Confira como eles avaliam a atual situação do clube.

Parahim Neto – Foi vice-presidente de Marketing do Novo Hamburgo

Não acredito que seja o pior de toda história, ainda, mas da história recente (últimos 25 anos) é o pior desempenho do clube no Futebol. Só consigo lembrar algo pior pelos idos da metade dos anos 1990, quando disputamos a Terceirona gaúcha. Mas o detalhe está no “ainda” que coloco. Porque, ao ver o cenário, tudo leva a crer que poderá ser o pior Novo Hamburgo da história.

Recentemente, por exemplo, foi contratado um diretor de futebol e, passadas quase duas semanas, absolutamente nada de iniciativas surgiram. Nem um sinal de planejamento e intenções de mudar o rumo desse desastre que estamos vendo. Era de se esperar que, no dia seguinte, se anunciasse alguma intenção, ideia, plano, mas nada.

Na parte técnica, os resultados colecionados também parecem não ser suficientes para alguma mudança. Tenho a impressão que o clube ficou amarrado nas numerosas contratações de jogadores – de alguma relação profissional, mas nenhuma qualidade técnica comprovada – e, agora, não acha a saída para o problema. Sabemos que o futebol é feito de escolhas e apostas (no bom sentido de “acreditar”), mas investir, por exemplo, em um atleta que pouco atuou nas últimas temporadas é crível? E lamento muito isso.

Os motivos para essa lamentável situação são vários, alguns até velhos conhecidos, como a escassez de recursos financeiros. Entretanto, na minha forma de ver, e com base no pouco que sei do cenário, a forma como o Futebol (departamento) e o clube estão sendo administrados podem estar causando maiores avarias do que o normal. A pouca identificação raiz da atual diretoria não foi compensada por profissionais capacitados, resultando num corpo diretivo “profissionalizado” ineficiente e sem histórico, sem nenhuma titularidade de pastas (vice-presidências) ligadas ao clube e sociedade, num modelo centralizado. Algumas exceções existem, como o Marketing atual, por exemplo, que vem trazendo coisas muito legais pro sócio e investindo em pontos certos. Diferente do Futebol, que vem fazendo apostas duvidosas e sem nenhum retorno a curto e médio prazo. E o Futebol, sabemos, é o maior marketing de um clube.

Por fim, me estranha muito, já há tempos, a forma como o Conselho Deliberativo do clube existe e está posto nos últimos anos, onde me coloco como parte anuente ou calada que permitiu isso. É quase nulo, pois seu papel foi convertido em algo diferente da sua natureza questionadora e de cobrança. Sem ação e nem reação, desmotivador e alienado, no pouco que faz, faz em nome da diretoria, na presença dela e somente com aval dela, o que é uma contradição.

Leandro Lucas – Torcedor

Estou muito chateado com esta situação do Noia, tudo muito estranho, estamos nos arrastando desde o Gauchão e nada muda. Sabemos dos recursos escassos que os times vivem, mas o Noia já passou dos limites. Tem que dar uma mexida geral, ninguém desaprende a jogar futebol, mas falta mais garra. Parece que ninguém quer vencer, se destacar, muito estranho.

A direção não se pronuncia sobre nada. Pobre de nós, torcedores, que temos de compactuar com isto, pois todos que ali estão não são eternos, e o que sobra é a instituição Esporte Clube Novo Hamburgo, que precisa sobreviver.

Gustavo Henemann – Jornalista. Trabalhou na Editoria de Esportes do Jornal NH

O Novo Hamburgo está vivendo um turbulento momento na sua história. Não posso dizer que é o pior, porque ninguém trabalha para que isso aconteça, sejam dirigentes, comissões técnicas e jogadores. São fases que todos os clubes passam, mas que servem de alerta e mostram que algo preciso mudar.

Dentro de campo os resultados não vieram e creio que isso seja um somatório de situações. O Noia teve uma transição de comando diretivo após uma boa campanha em 2022 e a obtenção da vaga na Série D do Brasileiro, após vários anos. Novos dirigentes chegaram com pensamentos diferentes de fazer futebol e trabalharam da sua maneira. Porém, algumas apostas dentro de campo foram feitas e não deram certo!

Esbarramos, novamente, no fator investimento para formar bons elencos. Mas isso é uma dificuldade de todos, não exclusiva do ECNH. Era cobrado oportunidade para os jovens da base, foram dadas e o rendimento não foi bom.

Tudo isso acaba deixando os ânimos à flor da pele, como foi visto na estreia da Copa FGF diante do São Borja, no Estádio do Vale. Um descontrole emocional dos anilados que há muitos anos eu não via. Na arquibancada, a frustração da torcida é evidente!

Torço por dias melhores para o anilado, porque o time que leva o nome da cidade não pode pensar em chegar assim em 2024, porque a Divisão de Acesso é logo ali.

Jauri Belmonte – Jornalista. Trabalhou na Editoria de Esportes do Jornal NH

Difícil falar se é o pior da história, afinal, o futebol é mais que números, envolve inúmeras variantes e fatores que culminam em resultados (sejam eles bons ou ruins). E perder é do jogo. Mas é necessário tomar uma atitude e ter indignação. Não tenho acompanhamento diário do clube, bastidores e treinos para julgar a capacidade dos atletas atuais e compará-la com a de outros que já passaram pelo Vale (ou Santa Rosa). Acho que seria muito oportunismo da minha parte.

Conheço alguns, sei da capacidade técnica e da índole, assim como da comissão técnica que está no clube. Mas é inegável que o trabalho é um fracasso e que não se está conseguindo extrair o melhor desses jogadores. E precisamos ir além. Temos um culpado? Ele aparece, dá as caras? Acho que não – e peço perdão se estou cometendo injustiças.

Porque o que vejo, jogo após jogo, é apenas o técnico como testa de ferro e respondendo entrevistas que caberiam, sim, à equipe diretiva do ECNH. Indago isso como jornalista e torcedor, pois um clube vai além das quatro linhas.

Volto a perguntar: os dirigentes estão onde? Eles existem ou estão usando o clube apenas como um brinquedo descartável? A consideração com sócios e conselheiros, que se engajaram em apoiar e abraçar a causa dos mil sócios no início da temporada, parece ter ido pelo ralo. Fracasso.

Luis Henrique Brusius – Torcedor

Se a gente olhar os resultados dentro de campo, eu acredito que seja um dos piores Novo Hamburgo da história. Talvez não seja o pior porque a gente conseguiu escapar do rebaixamento no Gauchão. Olhando só o resultado dentro de campo é realmente um dos piores Novo Hamburgo da história. Mas a gente não pode esquecer do trabalho que vem sendo feito fora de campo. Muitas vezes isso não é lembrado principalmente devido as derrotas constantes do nosso time.

Se a gente parar pra pensar, a gente já queria uma oxigenação, uma mudança de mentalidade na direção. Nada contra as diretorias anteriores, só temos a agradecer o trabalho de todas elas. Mas até mesmo os diretores anteriores falavam em mudança e oxigenação. Essa diretoria, finalmente, fez uma loja para o clube, que a torcida sempre pedia. Também tem mais produtos na loja, teve uma boa festa de aniversário, tem eventos antes dos jogos, campanha de sócio, marketing mais ativo nas redes sociais – não é ótimo, mas já começa a ser feito.

Essa diretoria também tenta amarrar uma parte dos direitos dos jogadores. O Richard, por exemplo, que saiu para outro clube da Série, o clube ficou com percentual de 30% para futuras negociações. Isso são coisas positivas que vêm sendo feitas pelo presidente Jerônimo. A gente não pode pensar somente no resultado dentro de campo. Claro que, como é um clube de futebol, o que marca mesmo é o resultado dentro de campo. Não adianta ser rebaixado, perder todos os jogos, e ter a melhor loja do mundo, o melhor site do mundo, o melhor Instagram do mundo. Isso não ia adiantar. A torcida, com certeza, ia dizer que preferia não ter uma loja, não ter nada, e ser campeão dentro de campo.

Os motivos que explicam essa campanha do primeiro semestre do ano têm relação com a montagem do elenco para o Gauchão. Não sei se a diretoria teve pouco tempo para montar ou por as peças não encaixarem. Desde o início da preparação do Gauchão se via que seria um ano complicadíssimo dentro de campo, como de fato foi.

Outro erro da diretoria, que ouviu uma parte da torcida para trazer alguém identificado com o clube, foi buscar o Edinho Rosa que estava numa péssima campanha no Aimoré. Ele já vinha de um péssimo trabalho e veio para ser o salvador do Novo Hamburgo no Gauchão. Deu no que deu. Escapou por pouco do rebaixamento. E, na sequência para a Série D, o desastre maior foi manter boa parte do elenco do Gauchão. Para o clube ter sucesso nesta Série D a gente teria de gastar um dinheiro que a diretoria não tinha, que seria para rescindir os contratos de 80% a 90% do elenco, e formar um elenco novo. Mas como ficou a maior parte dos jogadores, o time não evoluiu.

Não tenho nada contra a pessoa Edinho, já ouvi vários elogios como treinador, mas, infelizmente, neste ano não está conseguindo ter bons resultados. Ficar com ele em toda a preparação para a Série D e, depois, com esses resultados negativos, se dependesse da torcida, já tinha caído há muito tempo. É vergonhoso o resultado dentro de campo.

Finalmente, vejo que falta um diretor de Futebol. Além do fato de a diretoria, talvez, ter cuidado mais da base do que do profissional, tanto que na loja tem vários produtos da base anilada – alguns itens melhores que do profissional.

Eu ainda levo fé. Gostaria muito que o presidente Jerônimo conseguisse fazer um elenco completamente diferente, fazer um bom Gauchão e, na gestão dele, colocar o Novo Hamburgo na Série C do Brasileiro.

Daniel Meinhardt – Foi presidente, vice-presidente Jurídico e vice-presidente de Futebol do Novo Hamburgo

Eu estou perplexo com a situação do Novo Hamburgo. Estou preocupadíssimo. No site do clube, não tem uma diretoria elencada. Não temos um vice-presidente de Futebol e não temos um diretor de Futebol. Recentemente, foi contratado um Executivo de Futebol. Não temos vice de Patrimônio, de Finanças, de Administração e de Marketing. Não temos.

Externei em reuniões do Conselho Deliberativo que precisaríamos ter diretoria. Temos um presidente, 1º vice-presidente e 2º vice-presidente. Talvez, se possa dizer que estes são os vices. Mas não está escrito e não comunicam isso ao torcedor. Isso não é dito nem comunicado. Meu medo é que isso está sendo feito de propósito.

Já falei em reunião do Conselho, inclusive ao presidente, que a diretoria está asfixiando os conselheiros, asfixiando os torcedores e os associados. Todos estão asfixiados. Daqui a pouco, eles podem se retirar e quem ficará como presidente? Não há estímulo para futuras lideranças. Essa é a minha maior preocupação.

O time não estar ganhando de ninguém é um reflexo da diretoria. Tudo vem de cima para baixo. Não é de baixo para cima. Essa é a maior preocupação. Não há uma diretoria completa no clube. Acredito que o presidente do Conselho Deliberativo esteja sendo omisso e alheio ao que está acontecendo. O caminho é muito tenebroso para o clube. Faço votos que essa reportagem surta algum efeito. Mas é complicado. Não vejo que o problema seja dinheiro, pois a CBF está dando R$ 100 mil por mês pra disputar a Série D e tem o patrocínio do Banrisul. Em 2021, a gente fez a Copinha com R$ 90 mil por mês.

As escolhas para a montagem do elenco foram totalmente equivocadas, e feitas por quem não entende de qualidade técnica.

Rafael Weber – Foi vice-presidente de Patrimônio do Novo Hamburgo

É o pior Novo Hamburgo da história. Não só pelos resultados, mas também pela falta de qualidade do time. Desde o primeiro amistoso contra o Brasil, no final de 2022, não evoluiu nada. Todo jogo é o mesmo filme. São os mesmos erros, os mesmos jogadores incapacitados, qualidade muito ruim, falta de comprometimento de uns, falta de preparo físico de outros. É um desastre. É um time muito ruim. É o pior time do Novo Hamburgo que eu já vi. Olha que eu vivi tempos difíceis no Novo Hamburgo como torcedor. Estamos passando vergonha. É um fiasco.

Analisando de fora como torcedor, mas com a experiência de quem já esteve lá dentro, eu sempre digo que o time, dentro de campo, é um reflexo da direção, de quem está lá fora dirigindo o clube. Nós não temos uma diretoria. O Novo Hamburgo tem um presidente, e tem dois vice-presidentes. Mas não tem vice de Futebol, de Patrimônio, de Marketing, Jurídico. As pessoas que estão lá, além do presidente e vices, são funcionários. É um grande erro.

Parece que o futebol profissional do clube foi atingido por uma letargia. O absurdo foi normalizado em termos de futebol. A comissão técnica não tem mais condições de treinar. Deveriam ter pedido de demissão, não tem mais condições. O técnico Edinho está se mostrando fraco, que não obteve resultados. O Novo Hamburgo costuma perder e levar gols no segundo tempo, pois não tem preparação física. Mesmo assim, o clube decide manter uma comissão técnica dessa forma.

A atitude a ser tomada é trocar toda comissão técnica. Pro bem deles, deveriam sair do clube pra não prejudicar a carreira deles. Está muito sofrido. Estamos com pessoas que não estão preocupadas com as coisas dentro de campo.

Quem é responsável pela montagem do elenco também não está fazendo um bom trabalho. É uma pessoa incapaz. Veja o caso do Aimoré. Eles fizeram um Gauchão pífio e caíram pra segunda divisão. Mandaram vários jogadores embora, retomaram o trabalho do zero e, mesmo que não seja uma campanha brilhante na Série D, serve de exemplo. Trabalho não foi bom no Gauchão, substituíram os profissionais. Isso que as dificuldades financeiras são ainda mais complicadas no Aimoré. E, mesmo assim, eles fizeram diagnóstico correto e captaram outros jogadores, tendo resultados bem melhores que o Novo Hamburgo. Quem contrata não tem condições de estar no Novo Hamburgo.

Como torcedor, o que incomoda fora do normal é perceber que a diretoria parece não estar incomodada com a situação. Não se dá satisfação pra ninguém. Parece que não estão nem aí e f…

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