Nem a pior nem a melhor. Foi a #NossaCopa. Nota 8.

A Copa do Mundo Fifa 2014 não termina hoje à noite no Maracanã com a disputa entre Alemanha x Argentina. Dentro do gramado, sim, a final é hoje e teremos o campeão. Fora de campo, contudo, a Copa continuará nesta segunda-feira. Isto porque, a partir de amanhã, passaremos a viver o legado deste evento. E esta história tem diferentes roteiros: alguns com desfecho bastante positivo, mas muitos deles com cenários desagradáveis.

Aprendi nesta Copa que pior do que o Complexo de Vira-Latas é o Complexo da Miopia. É a visão distorcida, de poucas referências, ufanista e parcial. A pessoa só enxerga aquilo que interessa. E o

Complexo da Miopia proliferou em progressão geométrica entre muitos brasileiros nos últimos dias. A mais

óbvia constatação passou batido para muita gente: o país precisou parar para este evento acontecer. Feriados, pontos facultativos, paralisia geral em diversas cidades. Precisou ter um mandrake generalizado para que as coisas funcionassem. E a conta vai chegar – abaixo trago números.

Um dos grandes diagnósticos pode ser feito a partir da expressão #CopaDasCopas. Criada com maestria pelos marqueteiros da presidente Dilma Rousseff, ela funcionou. Desde experientes jornalistas – com seus respectivos interesses – até os profissionais

de primeira viagem em Copas, passando pela classe política e simpatizantes da presidente, muita gente divulgou e

acreditou que esta é a melhor Copa da história. Baseado em quê? Comparado com quais números? É o velho ritual que persegue o povo brasileiro: pão e circo, ilusões, promessas, cortina de fumaça, enganações. Para que inventar este factóide?

E dá-lhe Complexo de Miopia!

Nas obras dos estádios utilizados no Mundial, oito operários perderam a vida. Foram oito brasileiros sacrificados para que nossas Arenas pudessem ser fotografadas e filmadas para o mundo inteiro. E os outros dois brasileiros que morreram após a queda de um viaduto feito às pressas para o Mundial? E o jornalista argentino morto após acidente de trânsito com ladrões em fuga? São 11 cadáveres de inocentes. #CopaDasCopas? Tem de ser muito desumano e insensível para proferir esse slogan marqueteiro. E dá-lhe Complexo de Miopia.

A #NossaCopa teve muita coisa bacana e positiva. Houve diagnósticos e alertas – e me incluo na questão de caos nos aeroportos – de que teríamos sérios problemas de infraestrutura, hospedagem, segurança. A imprensa, bastante alarmista antes da Copa, teve papel decisivo: segurou os brasileiros em casa e permitiu que os turistas usufruíssem a infraestrutura. Superamos estes problemas – com a paralisia geral, ok, mas superamos. Fomos bons anfitriões. Empolgamos os visitantes. Vibramos com nações diferentes. Abrimos as portas de nossas casas para visitantes – eu, por exemplo, recebi torcedores do Irã na minha residência. Promovemos nosso turismo – eis aí um dos maiores legados. O mundo conheceu melhor e em clima de paz o nosso país.

A #NossaCopa empolgou dentro de campo. Lindos gols. Grandes jogadas. E quantos goleiros com técnicas exuberantes!

O

que foi o peixinho do holandês Van Persie contra a Espanha? E o voleio do australiano Cahill contra a Holanda? E os gols nos últimos minutos? Que lindos gols, que linda festa nas arquibancadas! Que colorido que vamos guardar com muito carinho e para sempre. Fomos, sim, anfitriões de respeito.

Em relação à seleção brasileira, tudo já foi dito e escrito. Repetirei apenas minha resumida avaliação. Chegar na semifinal era a obrigação. Ficamos

entre as quatro melhores seleções do mundo!

Numa semifinal onde estavam Brasil, Alemanha, Argentina e Holanda, qualquer um poderia passar. O problema foram os 10 gols levados na semifinal e na decisão do terceiro lugar, com atuações deprimentes. Que dor!

Escrevo sem saber quem será o campeão. Mas já consigo tirar minhas conclusões. Não foi nem a pior nem a melhor. Foi a #NossaCopa. Nota 8.

10 FATOS E NÚMEROS POSITIVOS

– Segunda maior média de público na história das Copas – atrás, apenas, da Copa dos Estados Unidos. Mais de 53 mil pessoas por jogo!

– Segunda maior Copa com número de gols marcados: 170 em 63 jogos. Se tivermos dois gols na final, superamos a Copa de 1998, que teve 171.

– Polícia Federal e Polícia Civil desbaratando quadrilha de venda de ingressos: exemplo para o mundo!

– Novas Arenas e modernos estádios para o futebol brasileiro.

– Turismo abriu as portas para o crescimento na visitação de

estrangeiros.

– Tivemos bons exemplos que poderão ser aproveitados nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e lições que serão aproveitadas neste outro grande evento, em 2016.

– Integração ente

povos da América do Sul, principalmente colombianos, chilenos e argentinos.

– Liberação de cerveja nos estádios e torcidas unidas – até

da dupla Gre-Nal. Sim, é possível.

– Flexibilização da Voz do Brasil, permitindo transmissão dos jogos pelas rádios e orientação do púbico. A flexibilização – com o programa indo ao ar em outros horários, não às 19 horas – deveria permanecer para apagar de vez com este legado dos tempos da ditadura.

– As Fan Fests. Caíram no gosto das pessoas, repetindo o sucesso da Copa da Alemanha. Foram bem mais visitadas do que na Copa da África do Sul.

10 FATOS

E NÚMEROS NEGATIVOS

– Foram oito operários mortos nas obras dos estádios – quatro vezes mais do que na Copa da África do Sul.

– Queda de viaduto em Belo Horizonte finalizado às pressas para a Copa. Dois inocentes mortos.

– Dois jornalistas mortos por problemas urbanos do país: trânsito e violência. Na Copa da África do Sul não houve este tipo de registro.

– O valor total dos estádios subiu dos 5,97 bilhões de reais para 8,48 bilhões de reais. Uma das Copas mais caras e descontroladas da história.

– Arenas “Elefantes Brancos” em cidades como Manaus e Cuiabá. Com manutenção de dezenas de milhões de reais por ano, vão tirar dinheiro de outras áreas para mantê-las em pé. Ou vão apodrecer.

– A Copa de 2014, sem a final, ocupa a 12ª posição no ranking da média de gols nas 20 Copas.

– 50% das obras previstas para a Copa não foram concluídas.

– Milhares de estabelecimentos no comércio e serviços apresentando enormes prejuízos no período da Copa. 30% de queda no Nordeste, 30% no Sudeste, 20% no Sul – números oficiais de entidades! A paralisia em função da Copa criou uma onda de prejuízos, principalmente, nos pequenos e médios estabelecimentos. A conta vai chegar.

– Pior goleada da seleção brasileira em 100 anos: os 7×1 da Alemanha jamais serão esquecidos.

– Manifestantes sendo presos de forma deliberada pela polícia. Lembrando os sombrios períodos da ditadura.

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