Jornalista de São Leopoldo redige “Carta aberta ao Sport Club Internacional”

Caro Inter, sou uma mãe com 51 anos de idade, cresci dentro
de uma família colorada. Alguns até fanáticos demais. Tenho amigos que de tão
colorados se fardam para ouvir o jogo. Ao longo da vida, torci muito por ti e
em alguns momentos até virei de costas pra TV de tão nervosa. Acostumei a
te ver virar o jogo no último minuto, pois aprendi que ser colorada é sofrer e
acreditar até os 45 minutos do segundo tempo. Te vi conquistar títulos na
prorrogação e nos pênaltis. Não sou o tipo de torcedora debochada, mas adoro
tirar sarro dos amigos gremistas por não terem optado por um time como
tu.

Aqui em casa já é tradição: cada novo integrante da família
engrossa a fileira de colorados. O bebê ainda tá na barriga, mas já ouve o teu
hino. Mal caminha e já vai para o estádio. Vira sócio-coloradinho. Temos
roupinhas de recém-nascidos com tua estampa. Bolas, copos, aventais, jogos de
carta, meias, sombrinhas, bandeiras, camisetas, bonés, lenços. Tudo em tua
homenagem. Nossos bebês aprendem a falar teu nome antes de qualquer palavra.
Sabemos as versões para o hino e todos os gritos de guerra.

A Isabela, a mais nova bisneta da família, é só um bebê, mas
outro dia arrancou suspiros no Facebook vestida de coloradinha (foto). Seguiu o
sangue: bisa, avós, pais, tios, primos e dindos, todos torcem por
ti.

E é pela Isabela que te escrevo. O que vou dizer a ela? Como
explicar que o time que sua família inteirinha abraçou chegou a esse ponto?
Como fazê-la entender que os jogadores foram tão irresponsáveis com a torcida
ao ponto de desperdiçarem partidas ganhas? Como vou explicar o placar de
derrotas como a contra o Vitória? E em casa? E essa sequencia histórica de maus
resultados? Foi má sorte ou displicência? Como vou dizer pro meu sobrinho que o
time que ela idolatra desde pequeno, está ao ponto do rebaixamento? Tu
até pode me dizer que estou sendo dura, pois nem tudo é comemoração e que os
momentos ruins fazem parte. Mas com certeza isso não é culpa do acaso.

Sabe Inter, penso agora nas gerações de torcedores que só a
minha família constituiu. Minhas filhas são loucas por ti. Meu marido sente
saudades daquele jogo de passes bonitos. Meu irmão ficou conhecido como o ‘Gordinho
do Inter’ e é um dos poucos que conheço que ainda defende, acredita e briga por
ti. Te ver jogando sempre foi uma alegria, uma provocação, só
que agora não. Talvez levada pela situação do Brasil e do RS como um
todo, estou desiludida. Desesperançada.

Estou furiosa ao mesmo tempo. Sou profissional e dou o meu
melhor no trabalho, porém não vejo o mesmo comprometimento dos teus jogadores.
Agora estão desesperados. Mas porque não fizeram enquanto havia tempo? Porque
chegar ao limite da nossa emoção? Porque nos machucar dessa forma?

Olha Inter, dá um jeito e resolve isso. Se vira! Seja
profissional. Faça jus ao teu salário e à tua torcida. Não permita que teu
relapso nos envergonhe. Tu tens um grupo de ótimos jogadores. Um goleiro dos
melhores. Falta o que? Disciplina? Espírito de equipe? Liderança? A bola,
literalmente, está contigo. Não nos decepcione. Não sei o que direi para a
Isabela se o pior acontecer, mas quero só ver o que tu dirá pra nós.

Assinado: Sílvia Trovo, colorada e angustiada. São Leopoldo/RS

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