Rumo ao movimento #Nãosedesconfigure

Aprender não deve ser uma justificativa para se desconfigurar

O relatório “Future of Jobs” (Futuro dos Empregos), publicado periodicamente pelo WEF (Fórum Econômico Mundial), é a principal fonte que defende a urgência do aprendizado contínuo para a sobrevivência e competitividade no mundo atual.

O relatório afirma que há uma ameaça de obsolescência de habilidades (Skills Gap) em função da aceleração da mudança. O avanço tecnológico (como a Inteligência Artificial, automação e digitalização) está tornando as habilidades atuais obsoletas em um ritmo sem precedentes.

Além disso, a estimativa de desatualização, estimando que uma porcentagem significativa das competências atuais dos trabalhadores, em alguns relatórios indicam que até 39% das competências essenciais em certas áreas estarão desatualizadas em poucos anos (geralmente até 2027 ou 2030, dependendo do relatório).

Habilidades mais exigidas (as chaves para a sobrevivência)

A pesquisa não foca apenas nas habilidades técnicas, mas nas “Soft Skills” (habilidades comportamentais) que só o aprendizado contínuo pode cultivar:

 

    1. Pensamento analítico e criativo: essenciais para resolver problemas complexos e gerar valor que a automação não pode.
    2. Resiliência, flexibilidade e agilidade: capacidade de se adaptar rapidamente a novas tarefas, ferramentas e ambientes, o que é a essência do Lifelong Learning.
    3. Autogestão da aprendizagem (Lifelong Learning): a própria mentalidade de crescimento e a capacidade de buscar conhecimento por conta própria tornaram-se uma das habilidades mais valiosas para o futuro.

 

O consenso dos relatórios, especialmente do Fórum Econômico Mundial, é que o diploma de graduação não é mais um passaporte para uma carreira estável, mas sim o compromisso com o aprendizado contínuo que garante a “empregabilidade” (a capacidade de ser contratável ou de gerar renda).

Em outras palavras, no mundo atual, aprender é a principal estratégia de sobrevivência e o custo de não aprender é a estagnação e a obsolescência profissional.
Qual é o custo pessoal de tudo isso?
É “abrir mão” de quem somos? É nos adaptarmos sem limites? É nos levar ao cansaço mental sem precedentes?
Em resumo: é nos ajudar ou nos complicar?
Para quem acompanha minhas reflexões semanais este artigo pode soar estranho. É para “soar” mesmo!
Existe uma grande diferença entre nos adaptarmos ao mundo e nos desconfigurarmos por completo. Mas antes disso, preciso explicar sobre a singularidade.
Singularidade é a qualidade de ser único, que reside na essência de cada indivíduo. Ela é a composição irrepetível de:
  1. Experiências de vida: as vivências, desafios, sucessos e fracassos que, juntos, formam uma história única.
  2. Combinação de habilidades e talentos: a união específica de inteligências, talentos inatos e hards skills adquiridas (competências técnicas).
  3. Perspectiva e visão de mundo: o ângulo particular a partir do qual a pessoa interpreta a realidade, formada por sua cultura, educação e valores.
  4. Conexões e redes: o ponto único que a pessoa ocupa em sua rede de relações sociais, familiares e profissionais.
  5. Valores e propósito: o conjunto de princípios morais e a motivação intrínseca que guiam suas ações.
Em filosofia, a singularidade se diferencia da individualidade (o ser indivisível) e da identidade (o que permanece idêntico ao longo do tempo). A singularidade é o modo único como a vida se manifesta na subjetividade de cada um, tornando a pessoa insubstituível não pela sua função, mas pelo seu ser.
Como a singularidade da pessoa pode mudar o mundo?
A singularidade não muda o mundo através de um padrão ou de uma regra universal, mas sim através de um impacto catalisador. Ela age em três níveis:
    1. Inovação: o indivíduo único faz conexões que ninguém mais fez porque possui uma combinação única de conhecimentos (seja em arte, ciência ou tecnologia). Como exemplo: uma nova teoria científica, uma obra de arte revolucionária ou um novo modelo de negócio.
    2. Inspiração/Cultura: a pessoa vive sua verdade de forma tão autêntica e corajosa que desafia o status quo e inspira mudanças de comportamento e pensamento em massa. Como exemplo: líderes de direitos civis, artistas que definem um novo movimento cultural.
    3. Resolução de problemas: um indivíduo aplica sua perspectiva singular e suas habilidades não padronizadas a um problema crônico, encontrando soluções que as abordagens convencionais não conseguiram. Exemplo: um engenheiro que resolve um problema de sustentabilidade utilizando uma técnica de sua área anterior (exemplo: agricultura).
A singularidade muda o mundo ao introduzir o novo — algo que não existia antes e que só poderia ter vindo daquela combinação específica de “ser” e “saber” daquela única pessoa. Alguns exemplos: Albert Einstein, Sócrates, Mahatma Ghandi, Jesus Cristo, Buda, Rosa Parks, Johannes Gutenberg, Marie Curie e tantos outros.
Não há como copiar um ser humano! E este é o ponto principal deste artigo.
Perceba que as habilidades exigidas pelo mercado (criatividade, agilidade) são, na verdade, subprodutos da singularidade que ele (o mercado) paradoxalmente ameaça extinguir.
Nossa configuração mais profunda
Como nos afirma a filosofia, nossa identidade, o que permanece ao longo do tempo, traz grandes diferenças ao mundo. Mudam os contextos, as épocas, as pessoas e a tecnologia.
Nossa singularidade é o nosso maior legado. Ela não é um acidente, mas a soma insubstituível de nossas experiências e essência. O verdadeiro desafio da vida não reside em nos adaptarmos a um molde externo, mas em preservar nossa integridade pessoal no turbilhão da mudança e do crescimento.
O aprendizado contínuo deve ser um refinamento da singularidade (aprender novas ferramentas para expressar uma perspectiva única), e não uma substituição da essência. Aprender a programar (hard skill) para construir a solução que só você imaginou (singularidade) é o verdadeiro objetivo.
Por isso, defender quem somos é reconhecer que nossa identidade é a única bússola confiável. O custo de tentar ser universal é a perda de nosso ineditismo. O mundo não precisa de mais cópias; ele avança pela coragem daqueles que afirmam sua própria singularidade como a verdade inegociável de seu ser.
É nesse ponto de integridade que reside nossa capacidade real de fazer a diferença. Ser diferente é o que nos traz reconhecimento e valorização.
Então, meu querido amigo, minha querida amiga. Muito cuidado!
Se conheça a ponto de não permitir que mexam em sua “configuração diferente” sob o pretexto de ter que se adaptar a alguma situação que não faz sentido nenhum para a sua vida.
Mudar não pode custar quem somos. Ao contrário: deve reforçar nossa essência, desde que conhecida por nós! Conheça-se!
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Crônica publicada no portal martinbehrend.com.br
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