Quando o foco da sessão de mentoria está mais nas possibilidades do que nas limitações e nos pontos a melhorar do mentorado.
Aqui você tem a aplicação prática de casos de mentoria e comentários para sua orientação. Os nomes das pessoas são alterados e o local não é divulgado. Para empreendedores e líderes, este conteúdo oferece aplicações bastante úteis. Vamos a situação real, resumida.
O bom “problema” de Kátia
Kátia era uma mulher madura. Casada há mais de 15 anos e com um filho em idade escolar. Ela sempre foi uma pessoa de confiança dos empreendedores onde trabalhou.
Ela tinha uma dificuldade em se comunicar, principalmente, quando envolvia pessoas com uma hierarquia maior que a sua. Suas experiências anteriores eram cheias de exemplos ruins, principalmente em termos de discriminação e instabilidade emocional.
Suas iniciativas, onde trabalhou, eram mal interpretadas e desconsideradas. Apesar de seus esforços, nunca chegaram a ser colocadas em prática. Além disso, tinha discussões técnicas memoráveis, que nunca foram respeitadas, mesmo sendo corretas.
Atualmente, ela tinha um cargo de gerência na área de gestão em uma empresa de prestação de serviços, e se mantinha discreta em suas manifestações. Apesar da experiência de vida, nunca tinha participado de sessões de mentoria em um negócio. Era uma novidade!
Quando ela me procurou, tinha um problema específico: não consigo expressar minhas ideias com clareza. Ninguém me respeita como deveria. Iniciamos as sessões semanais permanentes.
Uma das características da abordagem da liderança mentora é a sequência e seu foco no desenvolvimento da autonomia do liderado. E isto demanda tempo e maturidade no processo. Quando uma empresa investe nas pessoas que cuidam do seu negócio de forma humanizada, característica basilar da abordagem, o resultado é exponencial.
Resolvida esta questão e a partir do crescimento de Kátia, a convidei a fazer o curso vivencial de Líder Mentor. Há quatro pilares na abordagem: a escuta ativa, as perguntas, a criatividade e o timing.
Vamos ampliar uma das sessões em torno da criatividade. Ressalto aqui o foco principal da abordagem: o potencial das pessoas.
O nó que limita
Começamos as aulas sobre criatividade. Nestes encontros, como Líder Mentor, amplio o campo de visão sobre si mesmo e, ao mesmo tempo, levo ferramentas para instrumentalização. Quando começamos, a frase de Kátia ecoou fundo em minha alma:
– Não tenho criatividade! Sou péssima nisso.
Como líder Mentor, a pergunta foi automática:
– Por que você pensa assim?
– Em todas as situações sou muito tradicional. Vejo que minhas ideias são “seguras” demais. Não consigo imaginar nada diferente do que conheço.
– Você me disse que tem um filho?
– Tenho sim.
– Que está casada há mais de 15 anos.
– Isso mesmo. E o que isso tem relação com a minha criatividade?
– Você consegue se perceber como solucionadora de problemas em sua família?
– Com certeza. Se eu não “tomo a frente” e não sugiro um caminho, nunca fazermos nada diferente.
– Hum. Quero entender algo: você acabou de usar a palavra diferente.
– Sim. Sempre tenho sugestões e ideias que dinamizam nosso lar.
– Me permite uma pergunta mais direta?
– Lá vem você, César. Pergunta logo!
– Você acabou de dizer que não tem criatividade, há 5 minutos atrás. Ao mesmo tempo, usa sua imaginação e inteligência para solucionar problemas em casa e criar alternativas diferenciadas. Entendi corretamente?
– Sim. Isso mesmo.
– E por que você não faz o mesmo no seu trabalho?
– Como assim? Lá é minha casa. Temos intimidade para essas alternativas.
– Você acredita que a criatividade que utiliza em casa desaparece quando chega à empresa?
– Não sei. Parece que sim.
– E o que acontece com você quando está diante de pessoas com maior autoridade?
– Acho que fico preocupada em não errar.
– E quando estamos preocupados em não errar, o que acontece com nossas ideias?
– Elas se perdem. A emoção toma conta e não penso direito. Será que é por isso que não uso melhor minha criatividade na empresa?
– Não posso afirmar. Mas ressalto que a criatividade é uma competência a ser utilizada em todos os lugares. O local tem grande influência na sua expressão. Eu sei que temos uma cultura regional antiga que parece separar a vida pessoal da vida do trabalho, não deixando as emoções aflorar, somente a razão. Mas isso é realmente possível?
O silêncio se fez presente. E muitas vezes, precisamos dar um espaço maior à reflexão durante a sessão. Um dos objetivos do Líder Mentor é auxiliar na autopercepção das pessoas. As perguntas são muito úteis nesse momento.
É claro que depois de várias sessões já foi estabelecido uma relação de confiança entre mentor e mentorado. Por isso que digo que a abordagem do Líder Mentor é um processo. E não se limita a uma única sessão. Em um negócio, as relações são construídas passo a passo.
A linguagem verbal e não verbal da Kátia, estavam em sincronia. Eu percebi o seu esforço em encontrar uma solução para esta questão. Quando o mentorado está motivado em resolver uma das questões que lhe atrapalha, é sinal de que o Líder Mentor conduziu a sessão de forma correta.
A planificação que acalma
– César, estava pensando aqui. E se eu fizer o que faço em casa aqui na empresa, não estou “misturando as estações”?
– De forma alguma. Você utilizará a planificação. Não estamos falando de repetir comportamentos, mas de reconhecer competências já desenvolvidas e adaptá-las a novos contextos. É como acessar um mesmo tema em outra situação. Simples assim.
– Então quer dizer que a forma como uso a criatividade em casa auxilia no trabalho?
– Sem dúvida.
O rosto de Kátia começava a se iluminar. Era como se algumas “amarras” ou limitações próprias estivessem sendo questionadas naquele momento. Mas como Líder Mentor, o foco é o mentorado perceber o que já está fazendo: conscientizar-se, ou, trazer para o consciente. O famoso “se dar conta”
– César, você está dizendo que sou criativa?
– De forma alguma. Você está percebendo o que eu já sabia há muito tempo.
– Como pode isso? Parece que “caiu a ficha”.
– Qual ficha?
– A de que sou muito criativa desde muito jovem. Eu criava muitas brincadeiras legais na escola. Durante as festas da família eu sempre fiz ações diferentes. Em meu casamento, atiço a chama de nossa paixão com várias ideias importantes. Como não me dei conta disso antes?
– Calma, querida. Não seja tão exigente com você.
– Eu perdi todo esse tempo pensando que não era criativa? Sou extremamente criativa!
– Culpar-se não leva a lugar algum. O que você aprendeu a partir desta sessão?
– Que sou quem pensava que não era. A imagem que tenho de mim mesma parece distorcida. O que você pensa disso
– Minha opinião não é o mais importante agora. O que importa é o que você está descobrindo sobre si mesma. Ressalto a imensa oportunidade que está surgindo.
– Verdade! Como pude ser tão ingênua?
– Kátia, vamos focar nesta bela descoberta. Tenho um exercício experimental para você. Tem coragem de desbravar?
– Agora mesmo. O que preciso fazer?
– Esperar a próxima sessão e refletir sobre o que aconteceu aqui, profundamente.
E assim seguiu nossa sessão: em tom de reflexão, que amplia o discernimento e a autonomia. Um dos privilégios em ser Líder Mentor é observar o processo de evolução das pessoas. Ele é a essência do sucesso de uma sessão com esta abordagem.
Ela reconheceu que uma competência que utiliza espontaneamente na vida familiar também pode ser mobilizada no ambiente profissional, adaptando-a às circunstâncias: um belo avanço!
E você empreendedor ou líder, imagine o que pode acontecer quando uma gerente que antes se considerava pouco criativa começa a:
- Apresentar alternativas nas reuniões;
- Questionar procedimentos que poderiam ser melhorados;
- Participar mais ativamente das decisões;
- Contribuir para solucionar problemas de sua equipe;
- Desenvolver maior autonomia profissional.
Às vezes, o maior trabalho do Líder Mentor não é auxiliar no desenvolvimento de uma nova capacidade, mas ajudar alguém a descobrir uma capacidade que sempre esteve presente.
💡 Principais Lições para Líderes e Empreendedores
- A crença limitante é a maior prisão do talento: Kátia era competente, inteligente e resolutiva, mas travava diante de figuras de maior autoridade por medo de errar. Quantos profissionais talentosos não estão “invisíveis” nas empresas por que carregam uma autoimagem distorcida?
- O ambiente molda a expressão, mas não elimina a essência: se a cultura de uma empresa é rígida, baseada em “separar razão e emoção” ou pune o erro, os colaboradores se fecham em suas caixas tradicionais. O Líder Mentor cria um espaço seguro para que a essência criativa possa vir à tona;
- Liderar é revelar o óbvio oculto: uma premissa fundamental do Líder Mentor.
No próximo artigo, amplio o exercício, que você poderá fazer em casa e que auxiliará na educação e ampliação da sua criatividade. Mais do que isso, ele vai demonstrar a você mesmo o grande potencial oculto que se esconde aí. Vamos descobrir juntos?
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