Neste mês de julho, quando acontece o maior e mais importante campeonato esportivo do mundo, com bilhões de pessoas assistindo aos jogos e milhares de pessoas se deslocando para ver pessoalmente as partidas, eu não poderia deixar passar batido um dos assuntos que mais causaram alvoroço e polêmica quando deu o seu start oficial: A COR PINK DAS CHUTEIRAS.
Muito já se falou, li e reli inúmeras postagens sobre o assunto, várias análises, várias conspirações, desde:
– “isso tudo foi combinado!”
– “que coincidência!”
– “isso é estratégia de marketing!”
– “é a cor que mais se destacaria no verde do gramado!”
– etc, etc, etc.
Todas as teorias estão possivelmente corretas e possivelmente não dizem a verdade.
Coincidência ou não, um fato temos que levar em conta e é sobre isso que abordo a coluna deste mês: TUDO ESTÁ MUITO IGUAL!
E as quatro marcas mais importantes do universo esportivo trazerem para o evento de maior visibilidade da Terra o mesmo produto na a mesma cor (sim, o Pantone praticamente idêntico), só reflete este momento criativo em que vivemos.
Esse fato da Copa foi somente a ponta do iceberg em relação ao que vivenciamos no dia a dia, já faz tempo, falando em todos os segmentos, moda, arquitetura, automobilístico, cosmética, e por aí vai.
Quantas vezes você foi até uma loja (física ou virtual) procurar por algo e passando de vitrine em vitrine não encontra nada de diferente? Se há alguma coisa interessante, nas demais lojas vai encontrar o mesmo, resta ao consumidor, escolher o melhor preço, pois no geral, a qualidade é a mesma (e vamos combinar, ultimamente qualidade mediana num geral). Ah, mas tem a marca, mas será que a marca faz tanta diferença quando tudo é igual?
Se você fosse comprar uma chuteira original da Copa: 04 marcas renomadas e de alto nível, qualidade impecável, tecnologia, performance apurada, preço praticamente idêntico… qual você compraria? Alguns vão escolher uma marca ou outra, pois se identifica, mas a maioria vai no TANTO FAZ… e aí que começam os problemas e crises de identidade nas empresas e consumidores.
MODA É COMPORTAMENTO!
Essa é a premissa básica para todos os criativos, e assim sendo, vamos refletir isso tudo por 03 pontos de vista, começando pelo comportamento do consumidor, nossa razão de ser, pelo ponto de vista das empresas e finalizando pelos estilistas, que trabalham para trazer o novo e girar a roda da economia.
Segundo as análises de comportamento da Compor Digital, todos as pessoas dizem que querem ser únicas, seguir sua personalidade, seu estilo, mas nunca tivemos uma sociedade tão igual, seja na estética com as tais harmonizações, sejam nas compras nas lojas, as estatísticas de vendas não mentem, se vende tudo igual, sempre a mesma coisa, mesmos modelos, mesmas cores, e quando aparece um ponto de diferenciação numa vitrine, um modelo que foge à regra… ele fica ali, pegando pó por muito tempo, até que o lojista reclama para a empresa que “encalhou” e ela terá que resolver o problema.
Apesar disso tudo, escuto com frequência, de pessoas conhecidas e amigas, que sabendo que sou sapateira, me perguntam: “aonde encontro um modelo diferente, eu queria algo assim… algo assado, mas não acho… me dá uma dica?”… então, aí fico pensando nisso tudo e passando um filme na minha cabeça… as vezes fico sem resposta, confesso.
Por outro lado, temos o ponto de vista da indústria, que precisa de previsibilidade e garantia de esteira cheia, todos os dias. Quase impossível manter os resultados e a sanidade mental numa diversidade tão grande que acabamos ofertando, e muitas vezes, sem uma venda certa.
Ao mesmo tempo em que a empresa precisa inovar, trazer opções, novos materiais, novos processos, tudo tem que caber dentro do custo, do preço de venda e da viabilidade produtiva.
Após isso, ainda tem que passar pelo crivo do lojista, o comprador que faz a curadoria das lojas e que acaba adquirindo os novos lançamentos segundo seu viés, que passa mais pelos resultados de vendas do passado do que pelas tendências futuras e possíveis desejo de consumo.
Por fim, olhando o ponto de vista de quem traz as novidades, o discurso e a prática seguem a mesma ambiguidade do consumidor final. Uma das primeiras colocações que surge nas reuniões de briefing de produto, vindas dos gestores para os estilistas é a máxima: “temos que nos diferenciar”, temos que ter algo novo que ninguém tem, mas ao final… é aquilo que já sabemos.
Além disso, o estilista precisa entender a cabeça deste consumidor que “diz que quer diferenciação e exclusividade”, mas na prática consome o mesmo que todos. Ele também precisa entender das necessidades da empresa, custos, processos, evitar sazonalidades e trazer os resultados esperados, e por fim, tem que entender e agradar ao lojista, que deveria ser o profundo conhecedor do consumidor final, pois ele atende diretamente à esta pessoa.
Ainda, temos que levar em conta, que uma coleção que o estilista apresenta passa por diversas etapas de aprovação. A primeira delas é a do comitê de produto interno (gerentes e diretores que ajudam a definir o que a empresa vai lançar), após, temos a equipe de representantes que já julgam a coleção sem antes mostrar aos lojistas, depois temos os compradores de lojas, que só compram aquilo que eles acham que é bom e comercial (sem olhar muito para o novo consumidor que está em transformação), e por fim, tem o julgamento do próprio consumidor, que vai até à loja e escolhe o que quer… para um estilista, este só pode dizer que ACERTOU a coleção quando o consumidor passou o cartão e comprou efetivamente. Ufaaa!
Quando analiso, em poucas palavras, todo este universo, essa dinâmica e árdua tarefa de colocar novidades na rua, me ponho no lugar os estilistas e criativos destas grandes 04 marcas que lançaram as ditas chuteiras PINKS, cada um acreditando que estava fazendo o seu maior diferencial, mas por vários viezes, várias pessoas e comitês interferindo no processo de criação, acabaram trazendo TUDO IGUAL.
Essa é a realidade em que vivemos. O consumidor mudou (pense em você mesmo, como consumidor, o que você mudou nos seus hábitos nos últimos tempos?) e as empresas ainda não conseguiram adequar o seu processo produtivo e dinâmica de negócios a este novo modelo de consumo.
Isso ainda vai levar um tempo e muito sofrimento, mas teremos que colocar esse trem nos trilhos, novamente!
Tatiana Ritzel
Consultora de Moda e Estilista | Sócia da Compor Digital
