Quando a vantagem competitiva se dá pelas capacidades de aprender mais sobre nossos clientes e transformar esse conhecimento em ação mais depressa do que a concorrência, estamos em um momento em que a educação inteligente se torna uma escolha estratégica.
Em seu livro Gestão da Singularidade, Eduardo Carmello reforça que “a gestão da singularidade utiliza como princípio a máxima de Aristóteles, que consiste no conceito de conseguir oferecer o recurso certo para a pessoa certa, na medida certa, no momento certo, pelo motivo certo e da maneira certa.”
Em termos de educação e evolução humana, significa ampliar a sua personalização a cada ser humano envolvido. Há um contexto descomunal em cada um que precisa ser trabalhado com mais respeito e profundidade, seja em termos intelectivos, emocionais, espirituais ou físicos.
Gestão por Contexto
Em uma de suas palestras, Carmello reforça que a gestão por contexto traz clareza, agilidade e autonomia. Ele reforça que a autonomia estratégica se consubstancia em 4 momentos:
- Demonstrar coragem para propor soluções e determinação para fazer entregas de valor;
- Antecipar necessidades, argumentar oportunidades e criar projetos alinhados à estratégia;
- Monitorar seu trabalho com disciplina e corrigir a rota rapidamente;
- Trabalhar para o triplo crescimento: seu, dos clientes e da empresa.
A sensibilidade aos contextos destes três atores, você, os clientes e a empresa, é o objeto deste artigo.
Organizações Infinitas e o contexto
Uma frase que sintetiza bem a visão da segunda edição do livro Organizações Infinitas, dos autores Junior Borneli, Cristiano Kruel e Piero Franceschi, sobre a gestão de contexto é:
“Em um mundo de mudanças exponenciais, a gestão de contexto é o que diferencia empresas reativas de organizações infinitas: enquanto a gestão de conteúdo foca no ‘o quê’ e no passado, a gestão de contexto prioriza o ‘porquê’ e o futuro, criando o ambiente necessário para que a estratégia se adapte em tempo real.”
Quando se prioriza o porquê, o propósito. O futuro, a capacidade de ambidestria e a inovação. É preciso entender que estamos falando de como os contextos do triplo crescimento se relacionam com as pessoas em cada realidade.
O contexto pessoal de cada um, dos clientes e seus ecossistemas em rede e da empresa no meio deste turbilhão de informações, são complexos e dinâmicos, trazendo um belo desafio aos líderes: como navegar em meio a essa necessidade de adaptabilidade quase em “tempo real”.
Segurança psicológica e o contexto organizacional
Para Amy Edmondson, professora de Harvard e a principal autoridade no tema, a segurança psicológica não é sobre ser “legal” ou diminuir padrões de exigência; é sobre a crença compartilhada de que o ambiente é seguro para a tomada de riscos interpessoais.
No livro A Organização Sem Medo, ela detalha que a segurança psicológica é balizada por quatro fatores ou dimensões principais:
- Atitude em Relação ao Erro (Disponibilidade para Apoiar)
Refere-se a como a equipe reage quando algo dá errado. Em ambientes seguros, o erro é tratado como uma oportunidade de aprendizado e não como um motivo para punição ou busca de culpados. Isso permite que falhas sejam reportadas rapidamente, antes que se tornem crises.
- Disposição para Ajudar
Mede o nível de colaboração e suporte mútuo. Em times com alta segurança psicológica, os membros sentem-se à vontade para pedir ajuda sem o receio de parecerem incompetentes, e o conhecimento é compartilhado livremente em vez de ser usado como ferramenta de poder.
- Possibilidade de Discutir Problemas e Temas Sensíveis
Trata-se da abertura para falar sobre o que não está funcionando. Isso inclui levantar “bandeiras vermelhas” sobre projetos, questionar decisões da liderança ou apontar comportamentos inadequados sem medo de retaliação ou de ser rotulado como “pessimista”.
- Inclusão e Valorização da Diversidade de Ideias
É o grau em que as pessoas sentem que suas perspectivas únicas são valorizadas. Isso garante que todos, independentemente do cargo, sintam que têm o direito (e o dever) de contribuir com ideias e que sua “voz” tem peso na mesa de decisão.
Edmondson enfatiza que a segurança psicológica deve coexistir com a responsabilidade (accountability).
Criatividade e intuição
Junior Borneli em seu livro Domine as Hybrid Skills, reforça que a criatividade e a intuição são fundamentais a nova lógica de trabalho na era de IA.
Na nova lógica do trabalho, a Inteligência Artificial entrega a eficiência, mas são a criatividade e a intuição que garantem a relevância; dominar as hybrid skills é entender que o dado informa, mas a sensibilidade humana decide e inova.
De acordo com a visão de Borneli, o valor do profissional na era da IA se desloca para o que as máquinas ainda não conseguem replicar com autenticidade:
- A Intuição como Curadoria: em um mar de respostas geradas por algoritmos, a intuição funciona como uma bússola interna, permitindo que o líder sinta qual caminho faz sentido para o contexto específico, mesmo quando os dados são ambíguos.
- A Criatividade como Diferenciação: a IA trabalha com base em padrões existentes (o passado). A criatividade humana é a capacidade de quebrar esses padrões para criar ‘o novo’, transformando a tecnologia em uma ferramenta de execução, e não de substituição.
Essas habilidades compõem o núcleo do que Borneli chama de “habilidades híbridas”: o equilíbrio entre saber operar as novas tecnologias e manter a essência humana que gera valor estratégico.
O líder mentor e o contexto
As decisões são a base do funcionamento das empresas. Independente das metodologias de gestão utilizadas, são as pessoas que decidem. É neste momento que a abordagem do líder mentor se encaixa.
A capacidade de discernimento do ser humano tem relação direta com a percepção e a sensibilidade perante os contextos. Este encontro com a consciência e com a capacidade de abstrair vieses cognitivos, faz com que a intepretação de contexto com dados seja realizada com menor risco.
O líder mentor tem uma capacidade de observação ampliada, em função de que sua sensibilidade está avançada em relação aos detalhes envolvidos. Permitindo que sua criatividade e intuição se apresentem, cheia de imaginação, ele consegue integrar a complexidade com o nexialismo de sua atuação.
Lembrando: o nexialismo é a capacidade de conectar conhecimentos de áreas diferentes para encontrar soluções que um especialista isolado não veria.
Exemplo no ‘Dia a Dia’ de Liderança: imagine uma reunião para reduzir o churn (perda) de clientes.
- O Especialista em Dados apresenta números de cancelamento.
- O Especialista em Sucesso do Cliente fala sobre reclamações.
- O Nexialista cruza esses dados com a psicologia do consumo e a estratégia de educação da empresa, percebendo que o cliente não cancela por falha no produto, mas por falta de um “contexto de aprendizado” que o faça perceber valor.
Em resumo: Ser nexialista é ser um arquiteto de sentidos. É a habilidade de transformar o caos de informações dispersas em uma estratégia coerente e aplicável.
Como o líder mentor age sobre os contextos?
- Em relação às pessoas na organização: com sua abordagem diferenciada, consegue criar contextos, traduzindo percepções internas e externas com simplicidade. Além disso, utiliza as perguntas como leme de navegação em torno dos conhecimentos presentes e da educação futura às pessoas, despertando a curiosidade e a abertura, fazendo com que a liderança se estabeleça;
- Em relação ao cliente: com sua visão aguçada e espírito de desbravador de realidades, usa a curiosidade para entender melhor as necessidades e dores deles, articulando duas realidades, da sua empresa e do cliente, em torno de soluções de valor;
- Em relação à empresa: ele cria o contexto que permite a existência da liderança, derrubando barreiras, reforçando a autonomia estratégica, o florescer da criatividade e da intuição em um ambiente permeado de segurança psicológica, permitindo que o máximo das pessoas possa transparecer.
Ainda há mais um contexto: da Inteligência artificial. Ela tem auxiliado em todos estes contextos, quando pulveriza a informação, permite análises e soluções diferenciadas e automações em torno do que não é mais necessário ao humano fazer: as tarefas repetitivas.
Neste sentido, é fundamental a abordagem do líder mentor, com seu repertório e perguntas inteligentes em busca de melhores respostas da tecnologia, mesmo que promovam a dialética em grau máximo, como reflexo do diálogo transparente e franco, com profundidade e responsabilidade.
A transdisciplinaridade da abordagem de liderança expressa através do Líder mentor, dá suporte a ‘criação de sentidos contextuais’ em torno do que ainda não está evidente, como uma oportunidade latente, ou seja:
- Permite a plena experimentação em torno de contextos complexos, pessoas diversas e realidades não exploradas. É a essência da experimentação em busca de uma evolução constante e a antecipação de futuros.
Por estas razões, o líder mentor é um excelente curador de contextos. Esta é a essência de seu papel e atuação estratégica.
Em qual desses quatro contextos – você, cliente, empresa ou inteligência artificial – sua curadoria é mais urgente hoje?
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