Sábado de manhã era o dia que Carlos utilizava para pensar em sua semana. Era um momento íntimo, apesar de ser pai de 3 filhos.
Ele havia aprendido durante sua jornada a importância dos momentos “eu” na vida. Ele tinha construído uma família raiz: aproveitava os momentos simples com grande afeição. Desde o “bom dia” carinhoso até o abraço “apertado” a cada conquista.
Sua esposa, Maíra, era uma companheira ímpar: centro afetivo da família e conselheira que agregava. Ela ajudava a proporcionar um ambiente de amor e paz a Carlos. Seus filhos eram tão parceiros quanto ela.
As férias da família não aconteciam uma vez por ano. O casal ensinava: cada momento junto era um período de férias do mundo, um tempo sagrado. Por isso, os filhos eram estimulados a meditar, ler, pensar na vida, brincar e valorizar o tempo consigo e com quem “valia a companhia”. Sua filosofia priorizava as pessoas antes das coisas.
Carlos afirmava no café da manhã: a vida é o reflexo do que somos e do que entregamos a ela. Ela retribui com o seu melhor se o nosso melhor está presente. Mas, nem sempre foi assim.
Carlos e Maíra se conheceram na adolescência. Ela era de uma família tradicional e ele filho de um casal que trabalhava na indústria têxtil. Suas rotinas eram muito diferentes. Enquanto Maíra viajava com os pais quase todos os finais de semana, Carlos trabalhava para ajudar no sustento da família.
Se conheceram em uma festa. Tinham amigos em comum. Foi estranho. Eles nunca tinham se visto, mas automaticamente se procuraram. Era como se um ímã: amor à primeira vista.
Carlos era tímido e não gostava de se expor. Maíra era extrovertida e decidida: vou “atrás” do que desejo. E assim foi. Maíra foi conversar com Carlos e a mágica aconteceu. Eles começaram a sair quando podiam. Engataram um namoro flamejante.
Não estavam muito preocupados com o que suas famílias diziam. Mas o momento chegou: apresentar o namorado e a namorada à respectiva família.
Primeiro foi Carlos. Ele gastou o salário do mês e comprou uma roupa nova em várias prestações. Ele queria impressionar. Ao se olhar no espelho com a roupa nova, sentia a pressão de um juiz implacável em sua nuca, exigindo que ele fosse “suficiente” para a família de Maíra. Antes dele sair sua mãe lhe disse:
– Boa sorte meu filho. Lembre-se: vergonha na vida não é ser pobre, e sim sem caráter.
Ele não entendeu muito bem o que isso significava, agradeceu a mãe e foi correndo para a parada de ônibus. Ele não queria se atrasar.
Maíra estava nervosa e ao mesmo tempo impaciente. Carlos era o amor da sua vida. No auge dos seus 15 anos ela já estava organizando o casamento, os filhos, a casa, uma vida feliz.
Sua mãe foi ao seu quarto e perguntou:
– Por que está tão nervosa, filha?
– Não sei se vocês vão gostar dele!
– Por que pensa assim, filha?
– Ele não é de nenhuma família rica. Não tem nada e trabalha para ajudar no sustento da casa.
– E por que isso é um problema, filha?
– Não sei. Pensei que isso seria algo ruim.
– É claro que eu e seu pai nos preocupamos com você e com seu futuro. Mas me parece que você não conhece nossa história.
– Que história, mãe.
A campainha tocou. Era Carlos. Maíra saiu correndo sem dar tempo para a conversa terminar. Enquanto Maíra foi atender a porta, sua mãe teve uma breve conversa com seu pai e contou o ocorrido.
As apresentações foram realizadas e o jantar transcorria em um ambiente calmo e tranquilo. Carlos era um rapaz que gostava de ler e tinha muitos assuntos e sonhos.
O pai de Maíra olhou com o canto de olho para sua mãe e perguntou a Carlos:
– Maíra nos disse que você ajuda no sustento da sua família desde cedo. É verdade?
O coração de Maíra saiu pela boca. O nervosismo foi além do momento. Com muita calma, Carlos disse:
– Sim. Me orgulho muito disso. Tenho 5 irmãos mais novos. A vida de meus pais é de muito esforço. Não temos uma alternativa. Mas não me preocupo com isso. Sei que no futuro tudo vai melhorar. Quero estudar e proporcionar uma vida digna a eles.
– Você sabia que nós estávamos na mesma situação?
– Como assim seu Roberto?
– Sim. Eu e a mãe da Maíra estávamos na mesma situação de vocês. Só que eu era o rico e ela era quem precisava ajudar a família.
– Mesmo?
– Pai, mãe, vocês nunca contaram isso para mim, dizia Maíra.
– Filha, dizia a mãe, há muito que você não sabe. Mas não se preocupe, isso só mostra que nós precisamos conversar mais. As gargalhadas foram automáticas!
Todos relaxaram e a noite foi uma troca de experiências maravilhosas. Antes de Carlos se despedir, Roberto o chamou na sacada para uma breve conversa.
– Carlos, você sempre será bem-vindo nesta casa. Quero te dar um conselho.
– Fale seu Roberto.
– Nunca tenha vergonha de suas origens. O mundo de hoje é cruel. Julga e dá rótulos a tudo. Mas o prior juiz é a nossa consciência. Aprenda a transformar o juiz em um conselheiro.
– Como assim, seu Roberto.
– Evite se julgar demais. Aprenda a ouvir a voz da sua intuição. Tenha caráter, não importa o que o mundo lhe disser. Use a educação dos seus pais como uma baliza para suas decisões e ficará tudo bem.
– Quer dizer que não preciso me cobrar tanto?
– Exato. Aprenda com a vida. Mas aprenda com você e com seus pais. Não há nada de errado em ser pobre ou rico. Mas é muito difícil quando nos julgamos com os parâmetros do outros. Sua sinceridade e simplicidade era tudo o que eu desejava para nossa Maíra. Uma pessoa honesta e trabalhadora. Ajude a você mesmo. Não se cobre demais. Ouça os conselhos da sua intuição.
– Obrigado seu Roberto. Não sei se entendi muito bem. Mas prometo que vou pensar no assunto. Desculpa, tenho que ir. O último ônibus já está quase aí.
Depois daquela noite o namoro seguiu a mil maravilhas. Como bons adolescentes, entre erros e acertos. Após terminarem os estudos do ensino médio e iniciarem a faculdade, casaram e tiveram seu primeiro filho amado. A vida seguia o seu fluxo, entre desafios e conquistas. Não foi fácil para os dois, mas tudo foi realizado com muito amor.
As palavras de Roberto ficaram eternizadas na alma de Carlos. Depois de 15 anos de casamento, o sábado de manhã era muito importante. Era o dia da avaliação da semana e da verificação se a intuição ainda estava validando suas ações.
Sem julgamentos. Mas com muito respeito e carinho a si e a sua família, que tinha a mesma prática semanal. Cada um no seu dia.
Estavam se preparando para receber os sogros e os pais no domingo. Mais um daqueles finais de semana em família. E mais: era um dia especial. O aniversário de Roberto. Ele fazia questão de fazer na casa de Carlos, um filho que a vida lhe proporcionou.
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