Não está na Constituição Federal, mas é uma regra universal: nenhum brasileiro é obrigado a fazer concurso público. Ninguém precisa se inscrever num concurso. A pessoa que decide pagar para se inscrever o faz por livre e espontânea vontade.
Mas por que cada vez mais brasileiros querem um emprego público? Por que existem centenas de cursos especializados preparatórios para concursos públicos? Por que no concurso público da Prefeitura de Gramado para algumas dezenas de cargos, que será realizado no próximo final de semana, mais de 11 mil brasileiros se inscreveram? Gramado não tem 40 mil moradores. E mais de 11 mil brasileiros sonham em ser funcionário público no município. Por quê?
A resposta está numa construção histórica sem freio. Ao longo dos anos, o funcionalismo público em diversas instâncias – municípios, Estado, União – ganhou um status poderoso a partir de pressões lideradas por sindicalistas para lá de irresponsáveis e interesseiros. Foram
engordando carreiras públicas com vantagens, adicionais, bônus, penduricalhos, retroativos, auxílios e tantos outros benefícios, que se criaram algumas carreiras de marajás. Se trabalha por 30 anos e vai se aposentar com R$ 10 mil, R$ 15 mil, R$ 20 mil, R$ 25 mil ou bem mais em alguns casos.
Isso vale para desembargadores, juízes, procuradores, promotores, delegados, policiais, militares, bancários, técnicos-científicos como também para professores, administrativos, analistas, médicos, biólogos, enfermeiros, assistentes, monitores… Servidores do Executivo, Legislativo e Judiciário foram protegidos, ao longo dos anos, pelo medo de governantes em perder votos. Ao invés de enfrentar aberrações, mais benefícios, mais penduricalhos.
Só que existem dois agravantes nesta história toda:
– Quando o funcionário público passa no concurso, aquele cidadão inofensivo que respondeu de forma humilde às
respostas de um concurso, mostra suas garras até então recolhidas e se torna o "dono do Brasil": faz greve, fecha agências, tranca ruas e avenidas, bloqueia estradas, quebra, faz baderna. E nada acontece. Não atende bem à população, repele a meritocracia, faz greve de novo,
não é avaliado e também ameaça mais bagunça se for avaliado. E nada acontece. O servidor público se torna o dono do país. É o patrão do povo. Veja o caso dos funcionários dos Correios: todo ano têm greve. E estão em greve novamente. Os carteiros vão pagar os juros das correspondências atrasadas? Não, Martin, seu brasileiro idiota. Aqui quem manda é o servidor! E os funcionários do INSS, que estão parados há dois meses? E fica por isso mesmo. E por aí vai. Além de não atender os brasileiros – a maioria, bem mais sofrida, sendo demitida pela iniciativa privada –, eles atrasam quem quer empreender e precisa da burocracia do serviço público. “Estamos em greve, quem quer empreender e melhorar o país que se dane. Queremos cuidar das nossas carreiras e interesses de marajás", pensam muitos servidores.
– O segundo problema está ligado à Previdência. Criaram tantas regalias, tantas vantagens, tantos benefícios, que não tem mais como pagar. Aqui no Rio Grande do Sul, mais de 50% da folha é destinada para pagar
servidores inativos. É uma multidão ganhando 5, 10, 15, 20, 25, 30 mil por mês sem produzir. Só que essa multidão não representa nem 5% dos gaúchos. E como ficam os mais de 90% dos gaúchos abandonados? Na União é pior: lá o rombo da Previdência é de bilhões. Vai quebrar. Já quebrou! Notícia desta semana: a volta da CPMF – proposta do governo Dilma Rousseff – é para tapar esse rombo da Previdência. Se pensa em criar um imposto para tapar essa farra histórica. Criaram cargos federais por todo Brasil com tantos benefícios, vantagens, penduricalhos, e agora o rombo está aí. Não tem dinheiro para sustentar tanta gente ativa e inativa.
Lá atrás, deixaram se criar estas situações. E o que tem de servidor público federal se aposentando como marajá às custas… do povo! O povo miserável, que não tem o que comer; o povo trabalhador, que tem um teto de aposentadoria de, no máximo, R$ 4,6 mil; o povo empreendedor, que trabalha feito louco para tentar uma previdência privada; o povo… milhões… a maioria… O povo assiste aos “donos do país” querendo mais, mais, mais. Querem mais benefícios. Mais regalias. Querem ser sustentados pelo Estado. Não querem ser avaliados pelo seu atendimento. Querem fazer greve, atrasar o país e não sofrer punições.
Já passou da hora desta lógica ser invertida. Qual governante vai estancar essa sangria? À medida que o tempo passa, tem mais brasileiros querendo ser servidor público e menos brasileiros querendo empreender. Até porque, o servidor público pode ter o “privilégio” de atrasar ou estragar o projeto do empreendedor. É a glória! Se o Brasil seguir nessa rota, seremos um país de encostados. Um país de gente querendo ser sustentada pelo Estado. De gente sem ambição.
Por fim, mais dois registros:
– Conheço diversos trabalhadores do serviço público que honram e honraram suas carreiras. Na minha família, tenho três casos diretos. Eles deveriam ter sido mais valorizados, pois fizeram e fazem a diferença no serviço público. Mas são uma minoria e foram sufocados por uma maioria acomodada. Parabéns pela dedicação de vocês.
– Que os governos – municípios, Estados, União – respeitem os servidores públicos, oferecendo condições de trabalho saudáveis, salários em dia, salários justos, materiais de trabalho de qualidade, equipamentos modernos, salas e ambientes adequados para o correto desempenho das atividades de cada trabalhador. Mas que isso não signifique, sob hipótese alguma, aceitar mandos e desmandos, sendo submisso a interesses de uma minoria que, injustamente, inviabilizará o futuro da maioria.
Precisamos de servidores públicos. E, não, de sugadores do público.
PS: Sobre o concurso de Gramado: quer coisa melhor do que ser servidor público em Gramado e se aposentar por lá?
