Mercosul? Argentina despreza calçados brasileiros e abre espaço para invasão chinesa

Quem leva a sério o tal de Mercado Comum do Sul (Mercosul)? Além de sugar recursos dos países integrantes, com viagens internacionais de políticos e executivos, reuniões sem definições e muita pompa e circunstância, pouco se aproveita deste bloco de países (des)organizados. O Mercosul parece mais um encontro de vizinhos puxadores de tapete. Embora alguns esforços sejam necessários para estreitar relacionamentos, o histórico mostra raros avanços em temas envolvendo as nações.

Para atualizar a relação comercial do Brasil com o Mercosul, foi realizada ontem audiência pública na Assembleia Legislativa, em Porto Alegre. Proposto pelo deputado estadual e presidente da Comissão do Mercosul e Assuntos Internacionais, João Fischer (PP), o encontro contou com uma apresentação do setor calçadista realizada pelo presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein.

O dirigente destacou que a queda das exportações para Argentina, registrada por conta das barreiras impostas pelo país vizinho desde 2012 e, mais recentemente, pela situação econômica dos hermanos, tem efeito devastador na indústria calçadista brasileira. “Temos uma relação conturbada com a Argentina desde o final dos anos 90, mas a questão foi acentuada nos últimos anos”, disse.

Segundo o executivo da Abicalçados, o mercado argentino comprava muito calçado verde-amarelo, mas o espaço foi tomado pelos chineses. “A indústria argentina não tem capacidade para suprir a demanda de calçados e sempre tivemos uma participação relevante, chegando a responder por 61,5 % do total importado pelo país vizinho. Hoje a nossa participação é de 30% e dos asiáticos de 70%”, relatou. Klein ressaltou que a entidade vê com preocupação a aproximação comercial da Argentina com a China. “Tendo em vista a nossa fragilidade aduaneira, não será surpresa se, num futuro próximo, calçados chineses passarem a entrar no Brasil através da Argentina, como já acontece com outros países”, alertou.

A Argentina já foi o segundo principal mercado além-fronteiras para o calçado brasileiro, chegando a importar quase 20 milhões de pares verde-amarelos por ano, número que caiu a 7,6 milhões em 2014. Nos primeiros dois meses de 2015 a Argentina caiu para a quarta posição entre os principais mercados, com a importação de apenas 410,4 mil pares de calçados brasileiros. Para Klein, a situação incomoda, especialmente pelo fato da Argentina ser um membro do combalido Mercosul.

O aumento das importações de calçados desmontados do Paraguai, país sem tradição na indústria calçadista, também ligou o sinal de alerta para o setor. A suspeita da Abicalçados é de que boa parte dos produtos seja originário da China. Entretanto através do Paraguai, o produto tem tarifa zero. “Trata-se de um processo de triangulação nas importações, processo de elisão fiscal que deve ser melhor fiscalizado”, explica. Em 2014, o Paraguai foi a principal origem de cabedais – parte de cima do calçado – importados pelo Brasil, pelos quais foram pagos mais de US$ 22,2 milhões, número que era de US$ 8,7 milhões em 2009.

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