Após a histórica enchente de maio de 2024, o Rio Grande do Sul começou uma longa jornada rumo à reconstrução. Ainda abalados, os municípios foram se reerguendo, reconstruindo o que veio abaixo e, gradativamente, voltando para uma vida normal. Com o passar do tempo, os sorrisos foram reaparecendo e as energias se renovaram.
Em toda a região do Vale do Sinos, as festas e eventos temáticos foram mantidos para aquecer a economia, atrair visitantes, contemplar pequenos empreendedores e ajudar nessa retomada. As prefeituras e as lideranças sabem que aportar recursos públicos nestes eventos significa manter empregos, trazer dinheiro novo, fomentar a visitação, gerar tributos, fazer a roda da economia girar.
Apenas em um município isso não foi possível: Novo Hamburgo. Em razão de uma lei criada pelo então vereador Gustavo Finck (PP) e aprovada pela maioria dos vereadores, o município ficou impedido de aportar recursos em eventos festivos durante o período de calamidade. A Lei Finck, como ficou conhecida na comunidade, freou a economia local movimentada por eventos e ajudou a esvaziar o Centro.
FEIRA DO LIVRO, NATAL DOS SINOS, VIRADA CULTURAL, CARNAVAL
Enquanto as cidades vizinhas fizeram e fazem suas festas e eventos, Novo Hamburgo ficou em silêncio. Os hamburguenses tiveram de se deslocar para outras cidades em razão da não realização de eventos com décadas de história.
No Centro, historicamente, promoções como a Feira Regional do Livro, o Natal dos Sinos e o Carnaval sempre atraem milhares de pessoas para conferir shows, espetáculos e diferentes programações. Nos últimos anos, a Virada Cultural também se somou aos outros eventos para movimentar a região central.
Somando Feira Regional do Livro, Natal dos Sinos, Carnaval e Virada Cultural, eram dois meses do ano com intensa programação no Centro. Isso representa mais circulação de pessoas e de famílias, mais negócios, mais segurança, mais lazer, mais bem-estar para a população. Do nada, dois meses de intensa agitação sumiram com a Lei Finck.
É fato que, mesmo com eventos, o Centro de Novo Hamburgo vinha passando por dificuldades em razão da mudança de comportamento nas compras e negócios. Milhares de pessoas deixaram de ir até as lojas e aos bancos fazendo tudo de forma online. Essa mudança de comportamento fechou lojas e agências bancárias.
Além disso, após a pandemia, o home office – trabalho em casa – ganhou força e muitas pessoas estruturaram suas bases nas casas ou apartamentos. Então, até por isso, os eventos têm ainda mais relevância para atrair visitação. “Ficamos com medo de sair dos nossos apartamentos quando escurece. Os eventos traziam vida, encontrávamos muita gente de outros bairros, valorizavam o Centro. Agora, ficamos assustados vendo as pichações aumentarem toda a semana”, conta uma moradora da Rua Bento Gonçalves, que pediu para não ser identificada.
REUNIÕES
No lugar dos eventos, cresceram as pichações, os atos de vandalismo e a ocupação da região central por moradores de rua. Saíram de cena bancas de livros, decoração de Natal, famílias e atrações artísticas para ganhar espaço a sensação de abandono e o silencio. “A percepção é que, a cada semana, um estabelecimento vai fechando as portas por falta de atrativos. Tiraram os eventos para supostamente economizar, agora ficam realizando reuniões, pagando hora extra para a Guarda Municipal e outros gastos para proteger os comércios de ataques”, desabafa um comerciante, que pediu para não ser identificado.
O prefeito Gustavo Finck tenta desesperadamente achar um caminho para evitar que a lei criada pelo então vereador Gustavo Finck prejudique ainda mais a região central de Novo Hamburgo. Uma das medidas poderá ser a transferência do gabinete do prefeito para o Espaço Cultural Albano Hartz, no Calçadão – essa iniciativa foi falada por Finck na campanha.
A gradativa reativação da sede social do Grêmio Atiradores Novo Hamburgo e a possível instalação de um supermercado da rede Bistek, na Rua Gomes Portinho, no antigo Nacional, também podem somar pontos para movimentar o Centro.
Além disso, a Prefeitura vem realizando reuniões e ouvindo de comerciantes do Centro o que pode ser feito para revitalizar a região. No dia 7 de agosto, foi realizado o 2º Encontro do Comércio da Região Central. A atividade, realizada na Casa das Artes, reuniu lojistas, entidades representativas, integrantes da equipe de governo e da comunidade empresarial em mais uma rodada de escuta ativa e colaboração para o fortalecimento do Centro da cidade.
Na abertura do evento, a titular da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Turismo (SMDEIT), Daiana Monzon, apresentou o caminho já percorrido pela SMDEIT e reforçou o convite à construção coletiva. Ela relembrou que, há cerca de um mês, foi realizada a dinâmica ‘Café Mundo’, na qual foram debatidos quatro eixos: segurança, ação social, mobilidade e cultura. “A partir disso, elaboramos um questionário que resultou em uma votação online para ranquear prioridades. Hoje, trouxemos as ideias mais votadas para que possamos, juntos, pensar em ações concretas. Afinal, política pública só é efetiva quando nasce da construção coletiva”, destacou. A escuta ativa se manteve estruturada em torno dos quatro eixos temáticos — segurança e funcionamento do Centro, ação social e atendimento do Centro POP, mobilidade e estacionamento, e cultura, eventos e uso do espaço público.
Na primeira edição do Fórum CDL, realizado em julho deste ano, a revitalização do Centro de Novo Hamburgo também esteve em debate. Foi o painel “Por que investir no Centro”, com a fundadora da marca e proprietária da F4 Acessórios, Liziane Froelich, a proprietária da Óptica Luz, Cyntia Hunhoff, e a secretária Daiana Monzon.
A Lei Finck tirou dois meses de intensa movimentação, com milhares de pessoas circulando e consumindo no Centro. Agora, o governo Finck tenta remediar a situação antes de o coração de Novo Hamburgo ficar ainda mais esvaziado.

























