A polêmica das viagens na Câmara de Vereadores de Novo
Hamburgo não é fato recente. Há 60 anos, uma grande discussão envolveu não só a
comunidade hamburguense, mas ganhou destaque na imprensa estadual. A discussão
de seis décadas atrás é a mesma de hoje: em quais eventos ou atividades vale a
pena o Legislativo estar presente? É importante usar recursos públicos em
passagens de avião e diárias em quais circunstâncias? E se a viagem representar a vinda
de uma empresa a se instalar no município ou a captação de recursos federais para
investimentos na cidade? É uma discussão que segue até hoje, sendo que em 2017 – seis décadas após essa polêmica – a Mesa Diretora praticamente não está liberando diárias e viagens aos
vereadores.
Pois em abril de 1957 foi realizado o 4º Congresso Nacional
dos Municípios no Rio de Janeiro, que ainda era a capital federal. E a Câmara
de Novo Hamburgo se fez presente com seis de nove vereadores. Viajaram para o
Rio: Alcides Friedrich, Adalberto Alexandre Snel, Walter Merino Delgado,
Alberto Mosmann Filho, Adão Rodrigues de Oliveira e Mário Pereira.
Essa situação, com o risco de não ter sessão no Legislativo em
função da viagem de mais de 50% dos integrantes da Câmara, ganhou destaque nas
páginas do jornal O 5 de Abril. Na edição de 26 de abril de 1957, um “A pedido”
foi assinado pelos presidentes municipais do PTB, Seno Ludwig, do PRP, Plinio
Arlindo de Moura, e da UDN, Divo Nilson Sperb. Com o título “Esclarecimento à
opinião pública”, o trio informava que houve uma reunião com os vereadores Adão
Rodrigues de Oliveira (PTB), Aloisio Alcides Friedrich (PRP) e Alvicio Luiz
Klaser (UDN) a fim de que o trio ponderasse sobre a necessidade da comitiva
composta por seis vereadores ter essa expressiva representação.
Os vereadores comprometeram-se a reexaminar o assunto, mas
mantiveram a decisão já tomada de viajar. Com isso, registrou-se no “A pedido”, “os Partidos signatários sentem-se no dever de reprovar, publicamente, a atitude
dos seus já mencionados vereadores, ficando assim esclarecido ao povo que
fizeram tudo que estava ao seu alcance para evitar que se consumasse a
condenável atitude tomada pela Câmara Municipal que ao invés de enviar apenas
dois ou três dos seus membros ao Congresso acima aludido, entender de mandar a
quase totalidade de seus componentes”.
CORREIO DO POVO
Na edição seguinte, de 3 de maio de 1957, o jornal O 5 de
Abril publicou outro “A pedido” a partir de transcrição do que havia sido
publicado no jornal Correio do Povo. O texto começa destacando o município: “Novo
Hamburgo sempre figurou no noticiário da imprensa com as mais honrosas menções.
Ora por constituir o maior parque fabril do Estado, ora por ser o município
que, apesar do seu diminuto território, mais vultuosa arrecadação proporciona
aos cofres estaduais e da União…”
Lá pelas tantas surge a crítica: “Não poderia deixar de
surpreender, portanto, que exatamente em meio de uma comunidade cujos títulos
servem de orgulho ao país inteiro, surgisse esse estranho episódio, do qual se
têm ocupado os jornais referente ao forçado recesso que entrou a Câmara de
Vereadores de Novo Hamburgo, em face da partida, para o Rio de Janeiro, de
delegação composta de dois terços da mesma, a fim de representá-la no Congresso
Municipalista que anteontem se inaugurou. Essa lamentável atitude, que
resultará na suspensão das atividades da Câmara por falta de quórum, não
passou, porém, sem generalizada censura aos edis que se arvoraram
delegados-turistas à custa dos cofres municipais…”
SESSÃO COM TRÊS VEREADORES
O fato é que a sessão de 2 de maio de 1957 da Câmara de
Vereadores de Novo Hamburgo acabou sendo realizada com a presença de apenas
três vereadores: Niveo Friedrich, Alfredo Marotzky e Urbano Arnecke. Essa sessão foi registrada
na Ata 12/57. Mesmo podendo ter violado o parágrafo 3º do artigo 19 e artigo 20
da Lei Orgânica do município, a sessão acabou sendo realizada com menos de 50%
dos integrantes.
Na sessão seguinte, de 8 de maio de 1957, ocorreu a prestação
de contas dos vereadores que estiveram em viagem no Rio de Janeiro. A Ata 13/57
foi publicada na edição de 17 de maio de 1957 do jornal O 5 de Abril, e lá
constava: “O vereador Alcides, presidente da Câmara, agradeceu a solidariedade
recebida, e informou que a Delegação, efetivamente, muito fizera em defesa dos
interesses da Comuna, pois trabalhara denodadamente, o que será provado pelo
relatório a ser apresentado.” Também foi registrado na Ata 13/57: “O vereador Adão Rodrigues
de Oliveira, com a palavra, disse que afirmara que objetivamente,
concretamente, nada se obteve, de momento, do Congresso, mas que a Delegação de
Novo Hamburgo desempenhou airosamente sua missão e justificou plenamente sua
ida à Capital Federal.
Na edição anterior, no dia 10 de maio de 1957, o jornal O 5
de Abril trouxe reportagem de capa com Adalberto Alexandre Snel. Ele foi o
primeiro vereador a retornar a Novo Hamburgo e relatou desdobramentos de sua
viagem, que incluiu uma parada em São Paulo. Segundo Snel, um dos frutos de sua
viagem ao centro do país poderia resultar na instalação de grande empresa no
município. Finalmente, em 24 de maio, o jornal O 5 de Abril registrou reportagem
na capa a Declaração de Princípios da Bancada Gaúcha ao 4º Congresso dos
Municípios.

























