Um patrimônio histórico tombado de Novo Hamburgo deixará de existir nos próximos dias.
Depois de 72 anos de funcionamento ininterrupto, a Orquestra de Sopros de Novo Hamburgo (OSNH) teve os repasses que a mantinham encerrados pela Prefeitura.
Com isso, 34 músicos profissionais ficarão desempregados e três dos 26 núcleos de ensino de música para crianças da cidade serão encerrados. Mais do que isso, a comunidade perde uma das suas referências em cultura.
A confirmação do fim da parceria veio em comunicado assinado pelo secretário municipal da Cultura, Angelo Reinheimer.
Na pandemia, já houve uma ameaça de cortar gastos da orquestra, num caso rumoroso envolvendo a ex-vereadora Patrícia Beck (PP). Agora, do mesmo partido, o prefeito Gustavo Finck (PP) coloca em prática o que já havia sido um ensaio de alguns anos atrás.
Relembre algumas matéria daquela ameaça: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… e https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… .
TRAJETÓRIA
Apenas no ano passado, foram mais de 20 apresentações. Criada por Arlindo Ruggeri em 1952, a OSNH é mantida pelo instituto que leva o nome do fundador. Seu custo mensal é de cerca de R$ 120 mil, valores utilizados para pagamentos dos salários dos componentes e para manter os três Polos do Núcleo de Orquestras Jovens, que eram bancados pela Secretaria Municipal de Cultura.
Desde 2008 a orquestra é tombada como Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da cidade. Com orçamento de cerca de R$ 2 bilhões para este ano, o Executivo municipal alega a necessidade de cortar gastos. “A OSNH, o Núcleo de Orquestras Jovens e o Femusik são um organismo uno, vivo. A parceria existente com a Prefeitura, através da Secretaria de Cultura, existe desde seu início há 72 anos. Hoje vemos esse importante membro deste organismo, a OSNH, ser abandonado, como quem simplesmente decide não mais cuidar de uma parte do seu corpo, ou de um cômodo de sua casa” afirma a presidente do Instituto, Vera Garcia Rosa Sant’Ana.
O fortalecimento do Instituto Arlindo Ruggeri, nos últimos anos, gerou uma revolução cultural em Novo Hamburgo. Através dele a cidade estruturou seus núcleos de Orquestras Jovens. No projeto, estudantes têm acesso gratuito a aulas de instrumentos como violino, violoncelo, contrabaixo e de sopro. Eles ainda recebem os instrumentos por empréstimo, facilitando o aprendizado. Com o fim dos repasses, 75 crianças deixarão de ser atendidas em três núcleos. Outros 23 seguirão em funcionamento, quatro com recursos da Secretaria Municipal de Educação.
A maioria dos núcleos, 19, funcionam com recursos captados pelo Instituto por meio da Lei Rouanet. “A orquestra é um vetor de cultura na cidade, inclusive atraindo para cá recursos federais que captamos com os projetos”, lembra Gustavo Müller, diretor artístico da OSNH e diretor geral do Núcleo de Orquestras Jovens.
Em crescimento, a orquestra apresentou em 2023 o premiado regente Linus Lerner para liderar o projeto. Oriundo da região, Lerner já foi regente em países como Alemanha, Bulgária, China, Espanha, Inglaterra, Itália, entre outros. É o brasileiro que mais regeu no exterior, passando por quatro continentes. “Infelizmente, a atual administração municipal pretende extinguir essa orquestra sob a justificativa de contenção de despesas. No entanto, os custos anuais da OSNH são inferiores ao valor necessário para asfaltar um único quilômetro de rua. A pergunta que fica é: quanto vale a nossa cultura?”, questiona o regente.
A existência da OSNH enriquece a cena cultural hamburguense para além dos palcos onde toca. Além das Orquestras Jovens, o Instituto Arlindo Ruggeri realiza o Festival Internacional de Música de Novo Hamburgo (FeMusiK). “Esse é um evento que atrai músicos do Brasil e do exterior. Com ele, lotamos a rede hoteleira da cidade, geramos renda no comércio, e colocamos Novo Hamburgo na vitrine. Esses projetos estão todos ancorados na orquestra, e sem ela ficam em risco”, explica Müller.
Este ano deveria ser o de um novo passo para a orquestra. Em 2022, o Instituto recebeu da prefeitura o prédio histórico tombado onde funcionava a Secretaria da Saúde, em Hamburgo Velho, para transformá-lo na Casa da Orquestra. No ano passado a orquestra venceu um edital estadual e já tem a verba necessária para o projeto arquitetônico do restauro. “Hoje temos a Casa da Orquestra já em nossa posse e em processo de restauração já com verba aprovada. Como será daqui pra frente sem a OSNH ativa? Uma lástima, algo inimaginável, um patrimônio desse porte, com esse grau de significância cultural e social para a comunidade de Novo Hamburgo ser literalmente abandonado”, completa a presidente do Instituto.
PREFEITURA
A Prefeitura se manifestou:
Nota de esclarecimento
A Prefeitura vem a público explicar sobre os repasses à Fundação Arlindo Ruggeri, que é a mantenedora da Orquestra de Sopros de Novo Hamburgo (OSNH).
Núcleos de Orquestra Jovem:
A totalidade dos núcleos de orquestra jovem do Município têm suas atividades garantidas para 2025.
Dos sete núcleos mantidos pelo Município, quatro estão com o convênio assinado e os outros três serão regularizados nos próximos dias.
Para assegurar a continuidade do programa, o Município utilizará recursos federais destinados à Educação.
Manutenção da OSNH:
A Prefeitura de Novo Hamburgo reconhece a importância e a relevância da Orquestra de Sopros para a cidade.
Porém, diante das dificuldades financeiras enfrentadas pelo Município neste momento, não há condições de manter o convênio com a instituição.
O Executivo está à disposição para auxiliar a OSNH na captação de recursos junto à iniciativa privada. Além disso, ressalta que o cenário pode ser alterado para o próximo ano, pois a situação é momentânea devido à escassez de recursos.
Impacto no orçamento:
Como há mais de R$ 200 milhões de despesas não pagas de 2024, o Executivo precisará adequar integralmente o orçamento de 2025. Com isso, todas as secretarias, diretorias e departamentos têm menos dinheiro do que o previsto para desenvolver suas ações e programas.
Portanto, o contingenciamento de despesas não atinge apenas o setor cultural. As demais pastas também enfrentam a mesma necessidade de readequação financeira.

























