O Brasil dos contrastes e do sofrimento de seu povo. Na semana passada, estive envolvido – direta e indiretamente – em duas situações envolvendo prestação de serviços ao cidadão.
Um dos casos envolve uma gestante de 31 anos em Gramado. No sexto mês de gravidez, esperando seu primeiro filho, ela precisou de atendimento de urgência em função de forte hemorragia. A infraestrutura de saúde no município não estava habilitada para a intervenção emergencial. Ela precisava ser transferida para Porto Alegre. Era questão de tempo para salvar a criança. E ela precisou esperar mais de cinco horas
para a chegada de uma ambulância. Até chegar em Porto Alegre, foram mais de sete horas.
Ela perdeu a criança. A mãe passa bem fisicamente. A criança poderia ter sido salva se Gramado tivesse mais estrutura para UTI neonatal ou se uma simples ambulância estivesse de plantão para este deslocamento. Aliás, tinha uma ambulância na cidade, mas ela não poderia ser utilizada, pois precisava ficar de plantão para emergências. E salvar a vida de uma criança não é emergência?
Faltou uma ambulância. O rico Brasil e o rico Rio Grande do Sul não conseguiram
oferecer a mínima estrutura para salvar uma jovem vida. O nenê foi cremado no sábado.
O outro caso foi no Centro de Novo Hamburgo. Dois criminosos foram baleados após tentativa de assalto. Foram surpreendidos por policial civil e acabaram atingidos. Não levaram nada. Quando cheguei ao local da ocorrência, na Rua Nicolau Edmundo Blauth, encontrei três ambulâncias do Samu. Três carros para dois bandidos feridos. Eles foram conduzidos ao Hospital Municipal.
Um dos atingidos, menor de idade, recebeu tratamento médico e está solto. Foi colocado em liberdade por um promotor público. Após receber toda atenção do serviço de saúde pública – ambulância, curativos, remédios –, está solto para cometer o próximo crime.
Tem algo errado aí. Tem algo muito errado. Mas talvez eu seja o errado, pois mais de 54,5 milhões de brasileiros estão contentes com esta realidade. É, talvez o errado seja eu. Ainda estou refletindo sobre isso.
Para a mãe e seus familiares, meus sentimentos. E, apesar da dor sem fim e da qual eu não consigo mensurar, acreditem que a vida ainda vale a pena.
PS: Lembro também do meu ex-colega Luís Félix, o Gordo, brilhante repórter fotográfico. Vítima de acidente de trânsito, ficou esperando por cerca de uma hora uma ambulância. Faleceu.
























