A Prefeitura de Novo Hamburgo investe em torno de R$ 1 milhão por ano para levar empresas de micro e pequeno porte do município em estande coletivo de quatro feiras calçadistas: Couromoda e Francal, em São Paulo; e Sicc e Zero Grau, em Gramado. É dinheiro do contribuinte investido neste projeto. Nos eventos são negociados vários pedidos, que geram centenas de encomendas
– pares de calçados, bolsas, cintos, carteiras, etc. A iniciativa da Prefeitura de levar e subsidiar empresas do município ocorre há alguns anos e é elogiada por praticamente todos participantes.
Contudo, segundo alguns empresários do setor, existem pontos do estande coletivo que poderiam ser ajustados visando ao melhor aproveitamento deste dinheiro. Mais do que isso: precisariam ser revisados critérios para valorizar quem está gerando empregos e garantindo a produção no município.
Além disso, alguns participantes pedem maior diálogo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Tecnologia, Trabalho e Turismo (Sedetur), que é a responsável pela execução deste projeto. O objetivo dos empresários é fazer com que o estande tenha melhores resultados, aumentando as vendas e os negócios de quem está comprometido com o município. Lembro que este valor liberado para o projeto é aprovado pela Câmara de Vereadores e deve ser fiscalizado se está sendo corretamente aplicado.
Conversei com seis empresários do setor calçadista, que participam ou já participaram do projeto. Também conversei com o Sindicato das Indústrias de Calçados de Novo Hamburgo (SIC-NH) e Universidade Feevale, que participam do estande. E ouvi o titular da Sedetur Carlos Finck, e a coordenadora do projeto, Mineia Stoffel. Abaixo faço um levantamento do que apurei.
Valorização de quem gera emprego e renda no município
Segundo alguns empresários, indústrias que geram empregos e renda em Novo Hamburgo precisariam dividir o mesmo espaço com representantes comerciais que nem sempre produzem no município. Alguns expositores, por exemplo, levam produção para ateliers de outros municípios, gerando renda e empregos fora daqui. Os empresários consideram injusto investirem pesado no município, enquanto representantes não têm esta mesma preocupação. Os critérios deveriam ser aperfeiçoados. Há o relato de um expositor que trouxe produtos com preços arrasadores. Resultado: não entregou os pedidos feitos, “queimou” o nome do município e acabou tirando pedidos de outros colegas de estande.
Segundo o secretário Carlos Finck, isto até pode acontecer em casos isolados, mas não é a regra. Ele lembra que outras empresas de fora também trazem suas produções para ateliers de Novo Hamburgo e este é um ciclo normal e comum no setor calçadista. Ele acrescenta que um dos objetivos do estande é abrir espaço para micro e pequenas empresas, que nem sempre estão estruturadas e que precisam de um suporte no começo.
Visualização da marca
Segundo alguns empresários, falta espaço para divulgação da marca própria nos estandes. O mercado mundial trabalha há décadas a questão de valorizar a marca, criar conceito, mas o formato do estande impede uma valorização da marca. Por exemplo: um fabricante diz que precisa informar e destacar que seu produto é de couro, mas não consegue espaço. Segundo ele, é uma informação valiosa e não se trata de poluir o ambiente.
Segundo o secretário Carlos Finck, a padronização é importante para manter o estande com um conceito de unidade e evitar que se transforme numa grande confusão visual. Não há como atender cada pedido individualmente.
Sorteio de espaços no estande
Segundo alguns empresários, sorteio dos espaços no estande deveria ser mais transparente e democrático. Além disso, sugerem, deveria ocorrer rodízio para que os lugares da vitrine – melhor posicionados – possam ser ocupados por diferentes empresas. Teve uma empresa que já ficou três ou quatro vezes no lugar de destaque. Segundo alguns empresários, o espírito democrático deveria prevalecer e abrir oportunidades para outros estarem na vitrine. Da mesma forma, deveriam ser prestigiados os que estão presentes no sorteio com os lugares de destaque.
Segundo Mineia Stoffel, o sorteio é o mais transparente possível e não tem segredo. Os números estão dentro de um saco e cada empresa vai tirando o número respectivo ao local previamente marcado no estande. Cada um puxa um número e sabe onde estará posicionado. Além disso, os expositores estão livres para trocarem de posições entre si, o que já ocorreu em algumas edições.
Observação: O sorteio do estande coletivo do Rio Grande do Sul é diferente. A empresa que participa do sorteio chega, confirma sua presença e o próprio representante coloca seu nome na urna. E o sorteio começa com os lugares de destaque, garantindo que os espaços de destaque serão ocupados por aqueles que prestigiam o sorteio.
Pressão por resultados
Segundo alguns empresários, há uma pressão sútil para que os números das vendas do estande sejam positivos – diariamente os expositores precisam preencher um cupom com negócios feitos e visitas recebidas. Alguns se sentem intimidados com ameaças indiretas que seriam feitas durante a feira, do tipo “se os números não forem bons o projeto pode acabar no próximo ano”.
Segundo Mineia Stoffel, isto nunca existiu e rebate qualquer acusação. São os próprios empresários que anotam e passam os números dos negócios de cada dia. Ela diz que, se existe manipulação de resultados, são os próprios empresários que estariam maquiando as vendas.
Caixa de sugestões e reuniões
Segundo alguns empresários, falta espaço para dialogar e propor mudanças. Já foi indicada uma caixa de sugestões, que não foi considerada. Existe um engessamento do projeto e com isso há dificuldade de aperfeiçoar detalhes que poderiam reverter em melhores e maiores negócios na feira. Alguns empresários também lamentam a falta de uma avaliação pós-feira ou espaço para considerações que podem ajudar nos próximos eventos.
Mineia Stoffel e Carlos Finck discordam desta posição. Segundo eles, o estande já passou por alterações e formatos e foi se ajustando no atual modelo exatamente a partir de considerações e avaliações repassadas pelos participantes. Por se tratar de um estande coletivo é impossível atender a demandas individuais e o objetivo é atender pontos comuns e específicos da maioria dos expositores. Eles se colocam à disposição para ouvir e receber sugestões que poderão ser aproveitadas – ou não – em outras ações. E lembram que antes de cada nova feira é feita uma reunião preparatória.
Bolsa Família dos calçadistas
Segundo alguns empresários, o estande coletivo também é utilizado com fins políticos. É uma espécie de Bolsa Família da Prefeitura com os calçadistas de micro e pequeno porte. Acaba se criando um compromisso dos empresários falarem bem da administração, independentemente dos resultados alcançados e da forma como é conduzido o processo. Alguns expositores se sentem usados, inclusive em peças publicitárias do município e durante a visita de políticos do município.
O secretário Carlos Finck afirma que é uma batalha levar as empresas para as feiras e que esse não é um processo simples. O projeto depende de verba pública, que poderia ser utilizada em outras áreas do município, mas existe o entendimento que levar empresas para feiras traz retorno imediato. Ele também avalia que o mais tranquilo seria acabar com o projeto e não levar mais as empresas para feiras, mas acredita que este não é o caminho.
MINHAS CONCLUSÕES
– Os empresários são a favor do projeto do estande coletivo. Todos que ouvi querem sua continuidade, mas com ajustes para se obter melhores resultados
– Os critérios para participação devem ser reavaliados, afinal, envolve recurso público. Ao invés de levar 28 empresas, por exemplo, a Prefeitura poderia levar 18 ou 20, com mais espaço e com capacidade de gerar mais negócios. Ter empresas subsidiadas com dinheiro do contribuinte hamburguense que levarão pedidos para outras cidades é inaceitável.
– O estande é coletivo. O projeto é pensando no conjunto. Alguns empresários pensam em soluções individuais para seus negócios, mas o projeto deve ser pensado como um todo.
– Falta mais diálogo na relação da Prefeitura com os expositores. São os expositores as estrelas do estande, pois são eles que vão garantir pedidos, vendas, tributos e empregos no município. Parece existir uma resistência da Sedetur em ajustar alguns pontos do estande.
– A Câmara de Vereadores aprova os recursos para o estande, mas não tem conhecimento específico dos bastidores e dos desdobramentos dos resultados. Falta fiscalizar o correto emprego do dinheiro público.

























