Ao longo dos seus mais de dez anos de história, o Portal Martin Behrend vem registrando em reportagens ocupações irregulares e invasões de áreas verdes em Novo Hamburgo e região.
Algumas destas áreas, inclusive, são de proteção ambiental, enquanto outras têm relevância dentro de ecossistemas locais nos bairros ou, ainda, são regiões de risco ambiental.
Em anos anteriores, as ocupações chegaram a ser mais intensas, mas jamais cessaram. Seja em áreas públicas ou privadas, é uma prática que segue ocorrendo no município.
LEITORES QUESTIONAM
As reportagens veiculadas sobre ocupações via de regra despertam diferentes reações, críticas e questionamentos de leitores do Portal. Uma das manifestações recorrentes de hamburguenses é: onde estão os movimentos de proteção ambiental? Cadê os ambientalistas para denunciar e impedir agressões ao meio ambiente?
Novo Hamburgo tem, há 46 anos, uma organização denominada Movimento Roessler para Defesa Ambiental. Reunindo pessoas da comunidade, o grupo tem pautas locais e nacionais para proteger o meio ambiente. Algumas áreas verdes da cidade existem atualmente pois, neste quase meio século de atividades, o Movimento Roessler atuou para impedir algumas agressões ambientais.
Dentro dos questionamentos enviados pela comunidade ao Portal Martin Behrend, aparecem críticas sobre uma suposta atuação seletiva e elitista do Movimento Roessler. “Eles não aparecem onde há ocupações irregulares. Árvores são derrubadas, encostas são ocupadas, morros ficam vulneráveis pelas ocupações, e não se ouvem protestos. É como se, em ocupações e invasões, tá valendo derrubar a vegetação de forma descontrolada”, questiona um morador do bairro Vila Nova. “Eles ficam apenas no Parcão e em áreas nobres, de visibilidade. Não vão na periferia denunciar as agressões”, completa.
AVENIDA DOS MUNICÍPIOS
Nos últimos anos, dois dos casos mais visíveis e escancarados envolvem a ocupação de áreas em encosta junto da ERS-239, quase em frente ao Teatro Feevale, e na lateral da Avenida dos Municípios, entre Novo Hamburgo.
Uma reportagem produzida pelo Portal Martin Behrend, em 2023, deu origem a um Inquérito Civil do Ministério Público do Rio Grande do Sul sobre a ocupação irregular de área de proteção ambiental – matéria recente esclarece a situação: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… .
Nestes dois casos, dezenas de árvores foram derrubadas, lixo se acumula, há a ocupação irregular do solo, a poluição nos locais é visível, mas não ocorre reação do movimento que carrega no nome a defesa ambiental. Como já denunciado em reportagens, quem está ali são ocupantes que possuem carro, celular, compram madeiras de qualidade, ou seja, não são famílias miseráveis em busca de um abrigo.
Sobre essas construções irregulares, um engajamento do Roessler na sua conta no Instagram ocorreu em 2021, quando houve denúncia de ocupação de área pública às margens do Arroio Pampa. O Portal Martin Behrend também fez reportagem. A Prefeitura retirou os ocupantes numa reintegração de posse: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/…
PAUTA POLÍTICA
Outro leitor, morador do Centro, fez uma crítica sobre o alinhamento político do movimento. Segundo ele, partidos como PT, PCdoB e PSOL têm um histórico de acompanhamento de áreas públicas ou privadas, urbanas ou rurais, que foram ocupadas ou invadidas de forma indevida.
O hamburguense avalia que, como muitos integrantes do Movimento Roessler são simpatizantes ou militantes destas siglas políticas, estariam deixando a defesa da causa em segundo plano para não criticar as ocupações irregulares – mesmo que, comprovadamente, representem agressões a ecossistemas locais.
Abaixo estão algumas reportagens do Portal Martin Behrend envolvendo ocupações de áreas verdes da cidade:
2015 – Invasores derrubam área verde e estão erguendo minicidade clandestina dentro do bairro Roselândia: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/…
2018 – Prefeitura realiza intervenção, no bairro São Jorge, numa invasão em Área de Preservação Permanente (APP) – https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/…
2019 – Prefeitura age para impedir avanço de invasão de propriedade no bairro Santo Afonso – https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/…
2022 – Árvores derrubadas, lixo irregular, queimadas: área particular invadida na ERS-239 – https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/…
2023 – Farra na faixa: tem até estacionamento no retorno da ERS-239 – https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/…
2023 – Na cara das autoridades: avança favela em Novo Hamburgo numa área de proteção ambiental – https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/…
CONTRAPONTO
A reportagem do Portal Martin Behrend fez contato com a presidente do Movimento Roessler, Luana Rosa. Foram repassados questionamentos feitos nos últimos anos pelos leitores, com base no histórico de reportagens.
Confira o posicionamento do Movimento Roessler.
“Iniciamos esclarecendo que as áreas citadas são consideradas de preservação na legislação porque o Movimento Roessler fez pressão para que fossem incluídas na lei orgânica do município.
Também tivemos ações de denúncias nas décadas seguintes como num desmatamento que foi feito no morro da fundação nos anos de 1990.
Outra ação do Movimento Roessler pra proteger essas áreas foi a atuação via Comitesinos na definição das áreas da planície de inundação do Rio dos Sinos. Sem esses embasamentos legais as áreas estariam mais expostas.
A definição da planície de inundação fez com que a Caixa Econômica Federal parasse de financiar loteamentos em áreas de risco. Também apoiamos ações de denúncia de invasões via atuação no Comitesinos.
É necessário que as pessoas entendam que o Movimento Roessler não é um órgão executivo de políticas públicas, e que essas invasões decorrem da falta de política pública de moradia para a população de baixa renda. Essas populações invadem essas áreas em decorrência da falta de acesso a essas políticas. Nós enxergamos como solução para esses fatos ter uma política de moradia fora das áreas de risco porque entendemos que essas pessoas não estão ali por opção, mas por necessidade e falta de acesso à moradia digna. Criminalizar esses esforços de invasão é omitir que na região metropolitana há muitos imóveis e áreas seguras sem ocupação servindo a especulação imobiliária.
O Movimento Roessler tem limitações até de militância de ativistas pra atuar em tantas frentes de trabalho da causa ambiental. Se essa visão coincide com visões políticas, isso não significa que a entidade seja subordinada a correntes partidárias. Muitas vezes o Movimento Roessler criticou ações de governos de esquerda também.
O Movimento Roessler atua dentro de seus limites de atuação. Não fazemos mais por falta de ativistas e entendemos que nosso papel é pressionar o poder público pra se construir políticas de resolução desses problemas. Infelizmente, também por culpa da própria imprensa e de gestões públicas com outras prioridades, nossas manifestações têm repercutido menos na mídia, levando a sociedade a crer que estamos omissos.
Condenar os movimentos ecológicos por ocupações irregulares e eventos danosos ao meio ambiente, ao invés de culpabilizar o poder público, é uma forma de fugir da responsabilidade cidadã. E tais críticas partem de quem não apoiou o movimento ambientalista no passado taxando-o de ecochato ou, como agora, de elitista. O Movimento Roessler passou 45 avisando que tragédias como essa iriam acontecer. E estamos a um ano dizendo que avisamos, mas infelizmente a grande maioria da população não ouviu e é mais fácil cobrar de quem sempre protegeu o meio ambiente e tentou evitar catástrofes, como a que acabamos de vivenciar.”

























