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Cavalo na China

Tem coisas na vida que merecem ser fotografadas para serem lembradas por muito tempo. Tem outras que não se consegue fotografar de tão terríveis.

14 de Março, 2018 às 16:12

Tem coisas na vida que merecem ser fotografadas para serem lembradas por muito tempo, ou para sempre. Tem outras que não se consegue fotografar de tão terríveis, mas que ficam na nossa memória fotográfica para todo o sempre.


Na minha maior estadia na China, em 1993, a região dos calçados vulcanizados era a mais pobre que visitei, e também mais interiorana, completamente fora das zonas de desenvolvimento. Essas fabricas eram dirigidas pelo Exército, e as condições eram realmente as piores possíveis.


Nosso hotel era um edifício comprido (não alto), sui generis. As roupas de cama eram super sujas – não eram lavadas na troca de hóspede! Tinha cabelos pretos no lençol, e outras melecas tantas. A única bebida era uma térmica de chá, que tinha uma rolha gosmenta!


Ao questionar a gerência, a explicação era de que num corpo com espírito em harmonia não entram doenças, e que, portanto, não seríamos nós capitalistas, desarmoniosos, que iriamos mudar o sistema do hotel. Ainda bem que eu sempre levava uma toalha limpa do hotel de Hong Kong, e assim podia ao menos cobrir o travesseiro pra poder dormir.


O banheiro era individual, parede de tijolo sem reboco, o chuveiro era frio, e espirrava uma gota para direita e outra pra esquerda e molhava tudo. Tinha um vaso turco, e uma pia imunda. Mas era individual, e se podia ter, ao menos, privacidade.


As fábricas eram construídas em diversos prédios, que formavam um quarteirão fechado, e no meio tinha uma praça. Numa parte daquela praça estavam os banheiros. Eram pequenos cubículos, com um vaso turco cada um, sem pia e ...sem porta! Explicação dada: de trás somos todos iguais e, portanto, não tem porque se esconder detrás de portas.


Filosofias à parte, eu não conseguia usar aquele banheiro, e o corpo me doía todo. Um dia inventei que tinha esquecido um remédio, e devia voltar urgente ao hotel. A gente tinha de informar o motivo de fazer qualquer coisa, porque por um motivo fútil eles não deslocariam um carro e um motorista ... e ir a um banheiro individual seria considerado muito fútil.


Sonhei mesmo muito pensando que iriam me disponibilizar um carro e um motorista. Me disponibilizaram um rapaz que não falava uma sílaba em inglês, e fomos de ônibus.


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E foi naquela viagem de volta ao hotel, que eu vi uma coisa horrivelmente inesquecível.


O trânsito era uma confusão de carretas, carroças, carros, ônibus, e aquelas motocas que viram caminhãozinhos, etc. Naquele tempo o transito de lá não tinha mão.


De repente, apareceu uma carroça na frente do ônibus, e dá-lhe buzinaço. A carroça tinha tração animal, mas um animal estranho, de pernas e braços longos e muito finos, meio desajeitado. Não era um cavalo. Mais parecia um macaco. Mas não tinha pelos.


Chegando mais perto vi de que animal se tratava: era um homem! Todo deformado pelo trabalho. Já com braços mais longos, quase como um quadrúpede!


Empunhei a maquina para fotografar, mas não consegui. Cruel demais para ser verdade. Não queria ter aquela lembrança. Não adiantou nada, ela está na minha mente, gravada, viva, como uma das coisas mais degradantes que já vi por este mundo afora.


Banheiro individual? Que futilidade!

Autor

Edela Land

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