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Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Vagão de fumantes do trem. Eu e Paulo SantAna

Uma conversa a 250 km/h e a recordação pessoal de um gênio das palavras

20 de Julho, 2017 às 10:49

Paulo SantAna autografando a revista Expansão na Copa da Alemanha de 2006

Após realizar a cobertura da Copa das Confederações de 2005 na Alemanha, quando a seleção brasileira conquistou o título atropelando a Argentina na final, também consegui credenciamento para a Copa do Mundo de 2006. As duas coberturas foram para a Revista Expansão – sendo que no Mundial também publiquei uma coluna no Jornal de Gramado.


Foram 30 dias de Copa, com muitos deslocamentos. Acompanhei a abertura do Mundial em Munique, e assisti à final em Berlim ao lado de Tostão – vitória da Itália sobre a França. Com a credencial de jornalista, estava autorizado a viajar de trem para qualquer destino da Alemanha sem pagar qualquer euro. Bastava a credencial. E foi numa dessas movimentações que embarquei num trem com a equipe da RBS.


Como o trem estava lotado, acabei ficando no vagão de fumantes – quase vazio. Lá pelas tantas, surge aquela figura mítica – ainda mais para um jovem jornalista gaúcho. Ele parou diante da porta de vidro, que abriu com um sensor. Estava com uma carteira de cigarros na mão. Ele entrou no vagão e veio em minha direção. Paulo SantAna estava necessitando fumar. Ele precisava fumar.


Ele veio em minha direção e não tinha percebido que aquele era o vagão de fumantes. Foi quando decidi abordá-lo: “Quer fumar, SantAna?” Pego de surpresa com a abordagem em português, ele respondeu. “Sim sim...”. Então, convidei o colunista pra sentar na minha frente. E começamos a papear. Ele, claro, começou a fumar, inclusive me oferecendo um de seus cigarros. Fui me apresentando, explicando como estava naquela cobertura. Ele tinha curiosidade de saber o que um jornalista de Novo Hamburgo fazia “perdido” por ali. Falei do meu irmão Tomás, que era tenista profissional, e que eu era primo de um colega dele na RBS.


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O SantAna estava “apavorado” com a organização da Copa. Elogiava a estrutura dos alemães, comentou sobre limpeza, pontualidade e lá pelas tantas largou: “Nós estamos a 250 km/h neste trem e nada treme. Tudo silencioso. É inacreditável!” Eu estava ali maravilhado e realizando um sonho: cobrir uma Copa do Mundo. E naquele momento conversava com um dos gênios da imprensa gaúcha.


Eis que aparece no vagão o narrador Pedro Ernesto Denardin. O SantAna convida o colega pra sentar, já me apresenta ao Denardin e seguimos papeando. Ele estava no segundo cigarro, naturalmente. SantAna só estava chateado com uma situação: tinha perdido dois óculos durante a Copa. Só tinha mais um. Foi o único lamento dele. Falamos de alguns jogos da Copa, quais as chances do Brasil diante da França nas quartas-de-final – a seleção perdeu e foi desclassificada em Frankfurt – e mais algumas amenidades.


Enquanto fumava seu terceiro cigarro, pedi para o SantAna e o Denardin autografarem um exemplar da Expansão, que ficaria como documento de jornalistas e brasileiros presentes no Mundial – a revista foi entregue no retorno aos diretores da Expansão, Sérgio Jost e Ana Maribel Pacheco. Além do autógrafo, eu ainda registrava o momento com uma fotografia.


Finalizado o terceiro cigarro, SantAna pediu com licença e se levantou. Precisava voltar ao convívio dos colegas de RBS. Nos demos um aperto de mão. Não vi mais ele no Mundial. Mas aquele momento, em junho de 2006, permanece vivo na minha memória.


Paulo SantAna faleceu nesta quarta-feira (19.07), aos 78 anos, em Porto Alegre. Descanse em paz, gênio.


ABAIXO O REGISTRO DE PEDRO ERNESTO DENARDIN AUTOGRAFANDO A EXPANSÃO

Autor

Martin Behrend

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