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Entrevista com Laurentino Gomes – Parte II: O momento do Brasil e a história da escravidão

Na sequência de bate-papo exclusivo, escritor falado do seu próximo projeto literário

06 de Julho, 2017 às 17:43

Rodrigo de Bem Nunes e Laurentino Gomes durante encontro em Houston, nos EUA. Divulgação

Na segunda parte da entrevista com Laurentino Gomes, falamos sobre dois temas interessantíssimos; o atual momento do Brasil e o seu próximo projeto literário, uma trilogia que contará a história da escravidão. Confira!


Rodrigo de Bem Nunes – Sobre o momento atual do Brasil, qual sua visão?


Laurentino Gomes – Apesar das pessoas estarem hoje muito pessimistas com o que está acontecendo, com os escândalos, com a Lava-jato... Eu vejo tudo isso com bons olhos. É a primeira vez que estamos nos olhando no espelho nus, sem fantasia e nos confrontando com nossos próprios demônios.


Rodrigo de Bem Nunes – Seria talvez quase um processo didático ao brasileiro.


Laurentino Gomes – O Brasil está passando por um momento de grande sofrimento, de muita dor, de discussão a respeito de si mesmo. Quem é corrupto afinal? É só o PT, o PSDB, o PMDB ou somos todos nós que de alguma forma toleramos a corrupção? É possível ter um país assim? Como poderíamos ter um país melhor? São questões importantíssimas, pois o político corrupto que está em Brasília não chegou lá por acaso, ele foi eleito no voto direto. Então hoje estamos vivendo um momento muito rico, embora assustador, de discussão do que nós somos e do que nós podemos ser, mas sem fantasias.


Rodrigo de Bem Nunes – Que fantasias?


Laurentino Gomes – As de que o Brasil é um país maravilhoso, honesto, bonito por natureza, que vai acordar e surpreender o mundo por suas potencialidades, por suas belezas... isso não é verdade. Somos um país pobre, com grandes dificuldades, que nunca enfrentou o desafios da democracia como estamos enfrentando hoje. Então, no longo prazo nós vamos colher frutos muito bons do que está acontecendo agora, até porque isso é da natureza do processo democrático... ter uma discussão profunda, uma lavagem de roupa suja.


Rodrigo de Bem Nunes – Talvez a proclamação da República, de fato, esteja acontecendo agora...


Laurentino Gomes – De certa forma sim, mas é importante ressaltar que não se pode perder a esperança. Eu percebo no Brasil muita gente triste, achando que o Brasil não tem conserto.... Temos de manter nossos sonhos, nossas esperanças e acreditar nas escolhas que fizemos, como as eleições diretas, a democracia e acreditar que ela, a própria democracia, gera bons frutos no longo prazo.


Rodrigo de Bem Nunes – Laurentino, vamos falar um pouco sobre você. Poderia comentar um pouco acerca do seu próximo projeto?


Laurentino Gomes – Essa é justamente a razão pela qual estou nos Estados Unidos. Estou fazendo um trabalho sobre a história da escravidão. Desde que eu comecei a escrever o “1808”, o “1822”, eu notei que a escravidão é o assunto mais importante da história do Brasil


Rodrigo de Bem Nunes – E este é um assunto relativamente pouco divulgado...


Laurentino Gomes – Pouquíssimo divulgado. Tudo o que o país é hoje tem a ver com a escravidão. Muito do que nós brasileiros somos hoje se explica pela escravidão. Por exemplo, esse cinturão enorme de pobreza que vemos nas grandes metrópoles, a violência, uma população carcerária enorme desassistida... tudo isso tem origens na escravidão. Então eu vou fazer uma nova trilogia que começará em 2019 e será publicada até 2021 explicando primeiramente como surgiu a escravidão, como era estruturado o negócio, a travessia no Oceano Atlântico nos navios negreiros, as rebeliões dos escravos e assim por diante.


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Rodrigo de Bem Nunes – O Brasil, inclusive, foi o país que mais importou escravos no mundo, certo?


Laurentino Gomes – Sim, recebeu de 4.5 a 5 milhões de escravos no total, cerca de 40% do total qu saiu da África. Este será inclusive o tema do segundo livro, contando sobre o auge do período escravagista no século XVIII. E o terceiro livro tratará sobre o período abolicionista e o saldo da escravidão, algo de certa forma mal resolvido.


Rodrigo de Bem Nunes – Uma dúvida que muita gente talvez tenha é sobre como os escravos eram capturados e chegavam aos navios negreiros. Vemos poucos autores falando sobre como funcionava a indústria escravagista na própria África. Você abordará esse assunto?


Laurentino Gomes – Sim, com certeza. Os escravos foram vítimas de uma indústria desumana, isso é fato. Mas há algumas lendas neste assunto, como a de que os europeus capturavam os escravos no continente Africano. Isso não é verdade. Existia um mercado gigantesco de escravos na África muito antes dos descobrimentos portugueses, onde cerca de 5 milhões de escravos foram levados para o Oriente Médio ou para o Mediterrâneo através das rotas pelos deserto do Sahara.


Rodrigo de Bem Nunes – Então este era um sistema anterior a 1500 e Pedro Álvares Cabral, é isso?


Laurentino Gomes – Muito mais antigo. Na verdade, o que explica o sucesso do tráfico de escravos para as Américas através do Atlântico é justamente a existência de um mercado escravagista em pleno funcionamento devido às guerras internas da própria África. Havia reis e soberanos locais que inclusive se beneficiavam da escravidão. Com exceção dos portugueses em Angola, os europeus de maneira geral, nunca entravam no continente para fazer cativos, era muito perigoso. Havia muitos entrepostos comerciais no litoral, onde os europeus compravam as pessoas que lá chegavam já capturadas e escravizadas pelos próprios Africanos.


Rodrigo de Bem Nunes – Imagino que este será um grande desafio dos teus próximos livros; trazer a escravidão, um tema sensível, para o debate público através de uma perspectiva factual e não ideológica pois é um assunto com certo potencial para polêmicas.


Laurentino Gomes – Existem inclusive discussões em torno disso que são muito curiosas. Há por exemplo uma campanha internacional dizendo que os países que fizeram o tráfico de escravos, como no caso do Brasil e de Portugal, deveriam indenizar os países vítimas da escravidão. E daí eu pergunto: quem é vítima e quem é vilão nessa história? Até mesmo porque na própria África até hoje existem reis e dinastias que se enriqueceram através do comércio de escravos. É uma questão mais difícil do que se pensa. Mas é importante deixar claro que de forma alguma eu vou retratar os escravos como culpados pela escravidão. É claro que os europeus estimularam este mercado através do dinheiro, do interesse, das mercadorias... mas uma coisa bem diferente é achar que absolutamente todos africanos foram vítimas dessa indústria tão cruel. Este é um ponto a ser melhor esclarecido.

Autor

Rodrigo de Bem Nunes

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