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Entrevista com Laurentino Gomes – Parte I : Diferenças (e semelhanças) entre Brasil e EUA

Laurentino Gomes já foi considerado pela revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes

02 de Julho, 2017 às 16:45

Rodrigo de Bem Nunes e Laurentino Gomes em encontro nos Estados Unidos.

De passagem pelos Estados Unidos em função da pesquisa para seu próximo livro, tive a honra de não apenas conhecer mas partilhar algumas risadas e conversar longamente com Laurentino Gomes, um dos maiores escritores brasileiros da atualidade. Com mais de dois milhões de livros vendidos, Laurentino já foi considerado pela revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes, menção honrosa com muita justiça, afinal sua famosa trilogia "1808", "1822" e "1889" ajudou levantar questões importantíssimas sobre a origem do Brasil, iniciando um fenômeno de certa forma inédito no país; o reencontro do povo com sua própria história.


Falamos sobre diversos temas; as diferenças (e semelhanças) históricas entre Brasil e EUA, o momento político nacional, o seu novo projeto literário sobre a escravidão e as razões da relativa baixa repercussão junto a mídia de sua obra mais recente, “O caminho do Peregrino”, escrita em parceria com Osmar Ludovico. O resultado da primeira parte desta conversa você confere aqui!


Rodrigo de Bem Nunes – Observo que os EUA e o Brasil possuem alguns aspectos relativamente similares entre si. O período do descobrimento é próximo, os dois países foram colônias europeias, ambos tiveram a chaga da escravidão, sofreram com guerras internas...até mesmo na dimensão geográfica e na diversidade do povo encontramos semelhanças. Como explicar uma diferença de rumos tão grande em termos de desenvolvimento entre Brasil e EUA?


Laurentino Gomes – Quando olhamos essas similaridades, ficamos com a impressão de que o Brasil deveria ter já lançado um homem à lua, deveria ter ganho mais de 100 prêmios Nobel, deveria ter um PIB de 18 trilhões de Dólares... mas isso obviamente não aconteceu. Não é que o americano seja melhor e o brasileiro seja pior. Essa diferença está nas raízes históricas e no passivo histórico acumulado pelo Brasil, o que dificulta nossa caminhada em direção ao futuro. Por exemplo: em 1776, no ano da independência americana, já cerca de 90% da população era alfabetizada. Universidades como Harvard já existiam e a circulação de jornais era de três milhões de exemplares por dia. Quando a corte portuguesa chegou ao Brasil, em 1808, praticamente 99% da população era analfabeta. Em 1889, eram 80% e no ano que nasci, em 1956, ainda eram 50% de analfabetos. A primeira universidade brasileira é de 1912. Então, como você vai construir um país desenvolvido, inovador, com tantos passivos? O Brasil teve uma concentração de riqueza muito grande desde o princípio, com as capitanias hereditárias, era muito muito dependente da escravidão e, principalmente, o Brasil sempre adotou uma postura centralizadora em todos âmbitos da sociedade.


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Rodrigo de Bem Nunes – Creio que neste último ponto que citaste está uma das principais diferenças entre Brasil e Estados Unidos, a cultura da liberdade e o tamanho do governo...


Laurentino Gomes – Com certeza! O Brasil sempre teve um Estado muito grande, um governo que acaba se intrometendo na vida das pessoas, inibindo a liberdade individual, a inovação... Essa interferência do governo acabou ajudando a criar um ambiente de relações promíscuas entre o setor público e privado, este “toma-lá-dá-cá” permanente em que a pessoa, para tentar viabilizar o seu negócio, tem que corromper um agente público, que por sua vez acaba favorecendo mais quem dá mais vantagens, propinas... Esse ambiente de promiscuidade fez com que a socirdade brasileira abandonasse um princípio básico: a isonomia. Criou-se no Brasil essa ideia de que se você corromper o agente público, haverá favores que o seu concorrente não poderá ter.


Rodrigo de Bem Nunes – E esse sistema se retro-alimenta, certo?


Laurentino Gomes – Sim, pois há uma burocracia enorme para justificar um Estado ineficiente que consome muitos recursos... Se você começa a somar tudo isso, vai dar nessa diferença de rumos que observamos hoje.


Rodrigo de Bem Nunes – Mas é curioso notar que o Brasil, em alguns pontos, já esteve até de certo modo à frente dos EUA. Por exemplo, enquanto Thomas Jefferson, um dos pais fundadores dos EUA, possuía escravos e simpatizava com a ideia redentora da guerra, José Bonifácio, patriarca da independência brasileira, na mesma época, era contra a escravidão e já escrevia com uma abordagem humanista a frente de seu tempo, dizendo que qualquer caminho revolucionário que não respeitasse as instituições era nocivo. No entanto, os feitos de Thomas Jefferson são amplamente conhecidos pelo americano comum até os dias de hoje. Já no Brasil, José Bonifácio é um personagem praticamente desconhecido.


Laurentino Gomes – Sim, uma identidade nacional se forma, muitas vezes, com mitos fundadores. São pessoas ou fatos que acabam representando os princípios, as crenças de uma nação. Os princípios que nortearam lá em 1776 os pais fundadores, como Thomas Jefferson, são os mesmos até hoje; republica, democracia, liberdade... Já no Brasil existe uma série de quebras nestes princípios. Por 67 anos fomos uma monarquia, cultivando heróis de perfil monárquico. Aí vem a República e para se legitimar, ela acaba desconstruindo os mitos e heróis da monarquia para criar outros.


Rodrigo de Bem Nunes – De fato, Tiradentes é um exemplo de herói da Pátria criado pelos militares que proclamaram a República, muito tempo depois da formação do Brasil como nação.


Laurentino Gomes – Então, acabamos nos perguntando: “Quem somos?”, “Quais princípios norteavam os nosso pais fundadores?” e o José Bonifácio acaba sendo vítima dessas rupturas. Ele era um homem preparadíssimo, tinha uma visão de mundo a frente do seu tempo, mas seu projeto de país nunca teve sequência. Então, ficamos sempre com aquela ideia nostálgica de que o Brasil é o país que sempre poderia ter sido e não foi.


Rodrigo de Bem Nunes – Você não acha que essa ideia de ser o país que “poderia ter sido e não foi” acaba colocando o brasileiro numa certa zona de conforto, ao invés de indignação? É como se pensássemos “eu não preciso ler mais, nem estudar mais, nem fazer algo diferente pois eu poderia ter sido e eu não fui”. Não tens essa impressão também?


Laurentino Gomes Sim, com certeza. E aqui falamos de uma dimensão cultural que está dentro das convicções mais profundas da sociedade brasileira, a vitimização. A implicação deste pensamento é bastante conhecida; culpar os outros por nossos problemas. São os famosos bodes expiatórios, como o imperialismo americano, os portugueses que nos corromperam, a mídia golpista. Enquanto acha-se um culpado, damos o famoso jeitinho e furamos uma fila, pagamos propina para o guarda... O brasileiro não assume a ideia de que a construção nacional é responsabilidade de todo mundo, não apenas dos políticos. Então ficamos com essa ideia de que poderíamos ter sido e não fomos por algum motivo, quando isso não é bem verdade.


A segunda parte, você confere aqui mesmo, em poucos dias!


Autor

Rodrigo de Bem Nunes

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