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A mulher do Cunha e os cães de Pavlov

Mas como o Moro libera uma corrupta que todos sabem que mente?

30 de Maio, 2017 às 17:17

Divulgação

Há quase 100 anos, na Rússia, ao estudar processos digestivos em animais, Ivan Pavlov percebeu que a salivação em cães ocorria antes mesmo que a comida lhes fosse oferecida, bastando indicativos relacionados ao alimento, como barulho de portas abrindo ou o som das vozes dos tratadores. O biólogo russo começou então a condicionar a ração através do som de sinos e apitos.


No início nada acontecia, mas com o tempo os cães associavam o barulho dos sinais emitidos com a comida e, tal como antes, uma salivação intensa começava sem que fosse necessário servir qualquer tipo de alimento. Pode parecer uma experiência simples, mas com base nessas observações, Pavlov teorizou o mecanismo do condicionamento comportamental, dando início ao behaviorismo clássico, matéria fundamental da psicologia.


Alguns eventos recentes do noticiário me fizeram lembrar dos cães de Pavlov. Vejamos a a Venezuela, em convulsão social e hoje o país mais violento das Américas. Há desabastecimento, inflação e alguns dos oposicionistas do governo Maduro, quando não são presos, são mortos. Diante destes fatos, qual a reação dos partidos e lideranças, especialmente aqueles que enchem a boca para dizer que “lutam” contra ditaduras? Apenas silêncio. Rosnam apenas para abusos não convenientes a sua ideologia.


Mas talvez o fato que melhor ilustre o condicionamento estudado por Pavlov foi a absolvição de Cláudia Cruz, mulher de Eduardo Cunha, pelo juiz Sérgio Moro. Cláudia alegou que não sabia que a conta na Suíça aberta pelo seu marido continha dinheiro ilegal, ainda que ela mesmo fizesse uso desta conta para financiar viagens e compras luxuosas. Diante da falta de provas consistentes que alegassem o contrário, o juiz absolveu Cláudia, ainda que tenha retido os valores.


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Automaticamente vozes indignadas se levantaram; “mas como o Moro libera uma corrupta que todos sabem que mente?” ou “É lógico que a esposa sabia da origem do dinheiro, ela não é parente distante”. Ironicamente estas mesmas vozes silenciam quando um certo ex-presidente, notoriamente envolvido com escândalos de corrupção, diz nada saber sobre apartamentos no Guarujá, sítios em Atibaia, mensalões, petralões e outros afins. Além de não saber de nada, o ex-presidente responsabiliza o cônjuge para aquilo que foi descoberto, exatamente como fez a mulher de Cunha. E as vozes que se indignam com um, não se indignam com o outro.


Como entender esta contradição? Bom, assim como há 100 anos, os cães de Pavlov apenas reagiam de acordo com o sinal que lhes foi ensinado. Nada parece ter mudado.

Autor

Rodrigo de Bem Nunes

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