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O livro da Elisa

O anoitecer do 6 de abril foi especial: o lançamento do livro da Elisa Elena Strack e um momento de rever tantos amigos de Sapiranga

09 de Abril, 2017 às 20:14

Então, o anoitecer do 6 de abril de 2017 foi especial: o lançamento do livro da Elisa Elena Strack e um momento de rever tantos amigos de Sapiranga. Este livro não conta só a história da Elisa, mas conta de uma época em que os filhos das famílias menos abastadas tinham poucas opções: ou se ficava na roça, no interior do interior, ou ia-se trabalhar numa fábrica de calçados. O requisito básico fundamental era querer trabalhar.


Na roça, existia uma agricultura de subsistência e de escambo, que não atraia ninguém. Na fábrica tinha salário certo no final do mês, com 13º salário, férias e carteira assinada. Era tudo de bom. A certeza do salário fazia as pessoas assumirem contas, estudar, construírem as suas casas e por isso nossa região virou o eldorado do Rio Grande do Sul.


O relato da Elisa, que começou na produção, me fez ate sentir novamente o cheiro da cola-cimento, do pincel grosso todo lambuzado, passando a cola na parte chanfrada do couro. Não demais, nem de menos. Espalhar os cabedais para a cola secar, passar uma fita de reforço colante no limite entre o chanfro e o não chanfro, e depois virar a borda chanfrada, batendo com um martelinho. E era um toc-toc, ora no couro, ora na pedra, que fazia uma música cuja letra era dinheiro no final do mês!


Eu não trabalhei na produção duma fábrica, mas minha mãe tinha um pequeno atelier de costura, e eu ajudava ela na parte da preparação e depois ate na costura. Quanto dedo costurado junto naquela maquina de coluna! Eu era pequena, mas me sentia muito feliz por poder estar ajudando a sustentar a família. Sempre depois de voltar da escola. Estudo em primeiro lugar, como sempre dizia o meu pai.


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As encomendas da região vinham quase todas dos Estados Unidos, e com eles também os técnicos e os ensinamentos de gestão de indústria. O idioma inglês passou a ser fundamental, e passamos a ser educados no way-of-doing americano.


Os pedidos eram tantos que brotavam fábricas em tudo que lugar, mas nem todas vingaram. Por isso quando se tinha emprego numa fábrica como Paquetá as pessoas assumiam o nome da fábrica quase como um sobrenome: Elisa da Paquetá. Era um orgulho pertencer a um grupo assim, e fazia uma diferença grande na sociedade local.


Pelo sucesso do setor brotavam também edifícios e mais edifícios nas cidades. Novo Hamburgo, por exemplo, em 1960 tinha só uma sinaleira e um só edifício. Esse boom conseguiu em 40 anos fazer acontecer o que levaria mais de 200 anos, ou nem aconteceria. Tivemos o privilégio de viver em cidades em crescimento, casas novas, edifícios novos, pleno emprego, e pessoas felizes por terem trabalho e projeção.


Essa pujança toda promoveu uma imigração sem precedentes, de todos os cantos do estado Mas chamou a atenção também dos sindicatos que, aos poucos foram se instalando e transformando, na cabeça das pessoas, a alegria e o doce gosto de ter um trabalho, pela desilusão do gosto azedo de estarem sendo explorados. E surgiram, pela primeira vez na região, as greves.


Nesse momento, para mim, o encanto acabou. Tinha encanto?


A sucessão de coisas que aconteceram depois daí só fizeram piorar a relação de empregado e empregador, e hoje “vestir a camiseta”, comprometimento com resultado, que tanto a Elisa fala em seu livro, dificilmente existem se não forem pagos a preço de muito ouro.


Hoje dou razão ao que me disse um grande empresário do setor: “Se minha empresa não der lucro, eu fecho e mudo de ramo”. Ao que questionei sobre sua responsabilidade social, e ele respondeu: “A responsabilidade social é do estado, para isso que pago meus impostos”.


Na época, fiquei escandalizada. Hoje estou convicta que ele tinha plena razão.


Obrigada, Elisa, por me fazer lembrar de tudo isso. E parabéns pela tua história de vida!


Autor

Edela Land

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