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Vergonha, eu sinto muita vergonha. Vergonha, milhões nem sabem mais o que é isso.

Vergonha. Eis um artigo cada vez mais raro no Brasil.

22 de Março, 2017 às 14:34

Vergonha. Eis um artigo cada vez mais raro no Brasil.


Eu sinto vergonha de e por muita coisa. Mas eu vejo que milhões de brasileiros já não sabem mais o que é isso. Quem perde a vergonha perde o caráter. E quem perde o caráter está pronto para corromper, ludibriar, enganar, surrupiar e trapacear a qualquer momento.


Eu tenho vergonha de deixar o carrinho bloqueando um outro veículo no estacionamento do supermercado. Levo de volta ou tiro da área de circulação. Mas basta ir num mercado e constatar: tá cheio de gente que não sente vergonha por isso.


Eu tenho vergonha de ocupar duas vagas de estacionamento – seja na rua ou em local privado. Mas o que tem de gente sem qualquer vergonha que ocupa dois lugares, tirando uma oportunidade para outro motorista.


Eu tenho vergonha de deixar meu carro sem cartão da Faixa Nobre além do tempo de tolerância regulamentar. Mas centenas de hamburguenses não têm vergonha e deixam seus carros estacionados no mesmo local por horas.


Eu tenho vergonha de agredir as pessoas na rua. Mas temos gente sendo agredida diariamente pelos motivos mais fúteis e fica por isso mesmo.


Eu tenho vergonha de avançar pela rua quando tem o sinal vermelho para pedestres. Mas basta circular pelo Centro de Novo Hamburgo e ver que milhares de pedestres ignoram as regras, não respeitam o sinal vermelho e atrapalham o trânsito.


Eu tenho vergonha de ter votado em políticos corruptos e mudei meu voto nas eleições seguintes. Mas milhões de brasileiros seguem escolhendo e defendendo políticos corruptos, reelegendo corruptos que roubam o dinheiro da população.


Eu tenho vergonha de políticos que ganham polpudos salários, mas só trabalham algumas horas ou parte dos dias da semana. Mas em Novo Hamburgo, no Estado e no Brasil estamos rodeados de políticos que ganham mais de R$ 10 mil, R$ 20 mil e está se lixando para essa falta de vergonha.


Eu tenho vergonha de usar material jornalístico produzido por colegas – sejam textos ou fotos – e não pedir autorização e/ou dar crédito. Mas o que temos nas redes sociais são “cidadãos” pregando moral, preocupação com a ética e roubando conteúdo de jornalistas para publicar no seu perfil ou no seu grupo. Sem qualquer vergonha na cara.


Eu tenho vergonha em pedir cargos em governos. Mas o que mais temos são políticos “íntegros” vendendo suas posições e votos por empregos e carguinhos, sem qualquer compromisso ético ou moral.


Eu tenho vergonha de deixar sujeira na beira da praia. Nossa família junta a sujeira criada e levamos para casa em saquinhos. Mas ao final de tarde em nosso Litoral Norte fica comprovado que milhares de pessoas não têm vergonha em parecerem porcos: a imundície é visível.



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Eu tenho vergonha de jogador de futebol simulando falta ou usando meios ilícitos pra levar vantagem. Mas está cheio de torcedores aplaudindo e vibrando com as trapaças do futebol. Sem qualquer falta de vergonha.


Eu tenho vergonha de políticos que colocam interesses pessoais e financeiros acima dos interesses da comunidade. Mas o que mais temos são políticos olhando as vantagens pessoais antes do interesse da coletividade.


Eu tenho vergonha de enganar os leitores. Mas tem colegas que se escondem e chegam a criar nomes de jornalistas que não existem para assinar colunas e artigos.


Eu tenho vergonha de um país que libera motoristas assassinos que, bêbados, atropelam, matam e logo são colocados em liberdade pelos juízes. Mas os deputados federais e senadores não sentem vergonha disso, pois não mudam a lei.


Eu tenho vergonha de caminhar ou correr numa ciclovia, já que a regulamentação diz que ciclovia é um espaço para CICLOS. Mas tá cheio de gente que não tem vergonha e caminha e corre no lugar das bicicletas.


Eu tenho vergonha de inventar doença ou lesão para não trabalhar. Mas o Brasil é um dos recordistas de atestados médicos e outros expedientes apresentados por trabalhadores para escapar das tarefas diárias.


Eu tenho vergonha de sair opinando, ofendendo e xingando sem ler ou me inteirar de determinado assunto - num caso isolado que aconteceu, pedi desculpas publicamente. Mas vários leitores repetidamente saem xingando, tecendo opiniões equivocadas e reclamando sem ao menos acessar um artigo ou reportagem.


Eu tenho vergonha de censura, discriminação e liberdade de imprensa. Mas vários hamburguenses que se dizem a favor da democracia e "preocupados" com as liberdades participaram de um governo municipal que praticou censura e discriminação. E sem qualquer vergonha nada fizeram.


Eu não sou perfeito. Estou me esforçando para sempre melhorar. E fico envergonhado, por exemplo, em estar acima do peso há muito tempo prejudicando a minha saúde.


Eu queria que mais gente sentisse vergonha. Um povo que tem vergonha reforça seu caráter. Precisamos de mais brasileiros envergonhados. A sem-vergonhice é umas das piores doenças deste país.

Autor

Martin Behrend

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