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Raiz versus Nutella

Como já aponta Eclesiastes, nada novo debaixo do sol; o saudosimo é um fenômeno universal e atemporal

25 de Fevereiro, 2017 às 12:08

No conto “Noites Brancas”, escrito em 1848 por Dostoiévski, há uma passagem em que a avó de Nastenka, protagonista da obra, diz que o leite já não era mais o mesmo, azedando muito mais depressa que o leite fervido em épocas mais antigas. Ou seja, para a velhinha da obra, leite bom mesmo era aquele do fim da idade média.


Nada mais ilustrativo para a brincadeira do momento que infesta as redes sociais, o confronto entre o antigo (raiz) e o novo (nutella). Como já aponta Eclesiastes, nada novo debaixo do sol; o saudosimo é um fenômeno universal e atemporal, onde costumamos achar que antigamente tudo era melhor. O passado ganha o verniz da saudade e se transforma “nos bons e velhos tempos”.


Quando criança ouvia exaustivamente os adultos da época dizendo que infância boa mesmo tinha sido a deles, onde os brinquedos eram bolas de meia, sabugos de milho e latas de ervilha (raiz). Facilidades como a minha bola de couro sintético, vídeo-games como o meu super-nintendo e programas de TV como Jaspion sequer existiam, seriam “nutella”... Ironicamente vejo agora a minha geração, já adulta, com ar de superioridade dizendo que infância de verdade era aquela em que se podia brincar de bola (de couro sintético) e jogar super-nintendo logo depois de assistir Jaspion. Os elementos “Nutella” passaram a ser “raiz” num passe de mágica. E a coisa se aprofunda; não faz muito, um garoto de uns 12 anos postou estes dias: “As crianças de hoje nunca saberão o que era acordar cedo para assistir TV Globinho”.



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O saudosismo é bom, eu mesmo sou um saudosista. Adoro falar dos desenhos clássicos, da copa de 1994 e dos tempos em que o leite não azedava tão cedo. Mas algum cuidado é necessário para não deixar este sentimento se transformar em amargura, do contrário nunca se vai estar feliz com o presente, com as coisas de agora. A felicidade não pode ser apenas o verniz da saudade.


Imagino o mundo daqui a 20 anos, onde os saudosistas dirão que infância “raiz” mesmo era aquela de 2017, em que se jogava FIFA no Playstation 4 como uma criança normal, e não a de 2037, com partidas entre robôs humanóides em estádios holográficos sem graça. Um bando de “nutellas” serão as crianças de 2037! Nutellas!

Autor

Rodrigo de Bem Nunes

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