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Políticos, Coca-Cola e os comícios de antigamente nos bairros

Certo dia um candidato me chamou para subir no palanque e meu coração quase pulou pela boca. Eu! No palanque!

18 de Setembro, 2016 às 20:41

Comícios de antigamente sempre mobilizavam muitas pessoas pelo interior do Brasil. Divulgação

Em tempos de campanha eleitoral, não pude deixar de lembrar o estranho fascínio que exerciam os comícios políticos de bairros sobre a minha alma infantil. Sem existir ainda a televisão em nível de consumo familiar, só tínhamos rádio. Não podíamos ouvir ao anoitecer porque dava a Hora do Brasil e não se entendia praticamente nada de tanto chiado. A eletrola que funcionava na “capota” do rádio só aceitava discos de 78 rotações, que eram superpesados e cuja fidelidade ficava pior a cada uso. Por isso, não se podia escutar sempre, porque se “gastava”.


Os comícios eram anunciados com uma semana de antecedência dizendo que o tal candidato viria, e se começavam a construir os palanques, depois se colocavam as caixas de som, microfones, etc. Era uma agitação no bairro. O que significava um candidato e para que servia eu não sabia ao certo. Só sabia que era um homem importante, sempre de terno e gravata, que sabia falar bonito e, devido às preparações, devia ser uma pessoa muito boa, porque tanta gente gostava dele e aplaudia. Levava os ouvintes ao delírio!


O único senão era de que eles não falavam em alemão, só em português, assim eu não entendia bem o que eles falavam. Mas não importava, eu também não entendia tanta outra gente, nem os cantores importantes que falavam em inglês, francês, e assim por diante. Talvez eles falassem alguma coisa mesmo superior ao entendimento de uma criança. Minha mãe até dizia que aquilo não era coisa de criança e que eu não deveria ir lá, nem na preparação, muito menos no comício. Mas eu não podia aceitar isto. Eu estava ali junto com o pessoal da preparação, talvez até atrapalhando. Mas no dia do comício eu tomava banho mais cedo e colocava uma roupa melhorzinha, e ia esperar o candidato.


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O comício normalmente era na esquina e eu morava duas casas adiante. Naquele tempo a gente brincava até escurecer um na casa do outro, distante, às vezes, duas, três até quatro quadras, e não tinha nenhum problema. Sem telefone, muito menos celular, as mães não ficavam descabeladas, nem malucas se não sabiam exatamente onde estávamos.


Eu ia sozinha no comício, porque nenhuma de minhas amigas, nem mesmo a minha irmã, gostavam do assunto. Chegando lá, bem cedo, eu ficava bem na frente do palanque e sempre apareciam mais algumas crianças que eu nunca tinha visto. Mas criança se socializa com outras crianças de forma de muito rápida, assim que todos já éramos amigos e gritávamos em coro “Viva o sr. Tal, ou tal” e aplaudíamos muito. Aquilo tudo era muito lindo.


Antes de começar o discurso tocavam músicas e até dava para dançar um pouco com as outras crianças. O sr. Mario Bauer, dono do bar onde em frente se dava o comício, nos oferecia Coca-Colas pequeninhas – certamente pagas pelo partido do candidato – mas eu achava ele também um homem muito bom e muito rico, porque minha mãe sempre dizia que não tínhamos dinheiro o suficiente para comprar Coca-Colas.


Certo dia um candidato me chamou para subir no palanque e meu coração quase pulou pela boca. Eu! No palanque! Isso era bom demais. E daí ele me deu o microfone e pediu para dizer: “Viva o candidato Martins Avelino Santini!” E eu disse! Tudo meio atrapalhado, mas eu nunca mais esqueci este nome. Me senti nas nuvens. Até eu achei que era uma candidata ou qualquer outra coisa no mundo político. E ganhei mais uma Coca-Cola!


Minha mãe me ouviu falar no microfone e também não acreditou que eu fosse tão metida, uma vez que era por demais tímida em outras circunstancias. E acho que foi por isso que deixou ficar até o fim do comício. Ela tinha uma maneira muito peculiar de me chamar dos comícios ou de chamar meu pai do bar: ela tocava uma flauta de forma bem aguda, que se ouvisse de longe. Era o toque de recolher. E nós obedecíamos.


Mas eu vivi uma noite de glória. Por diversos dias eu subia no terceiro degrau de entrada de nossa casa, pela sala, e fazia meus discursos pessoais, também em alemão, para aqueles que não entendessem o português (o meu público era imaginário, só eu via). Depois, os comícios foram desaparecendo do bairro, e eu fui crescendo, sem que eu encontrasse mais nenhum glamour na política, nem em comícios.


Uma de nossas vizinhas comprou uma TV e era a sensação no bairro. Íamos todos para lá, para assistir ao canal 5. O Moacir Franco Show e Circo do Carequinha! As crianças sentavam no chão e os adultos em cadeiras e nos sofás. Lá pelas 21 horas, dava uma propaganda dos cobertores Parahyba, onde aparecia um carneirinho pulando a cerca e uma musiquinha: “Tá na hora de dormir, não espere mamãe mandar...” E todos íamos para casa.


Mas nada era como um bom comício! Onde, na minha percepção de criança, a Coca-Cola era patrocinada por pessoas tão ricas e boas!

Autor

Edela Land

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